Watch FIFA World Cup 2026™

LIVE, FREE and EXCLUSIVE

100 anos do primeiro voo que ligou Portugal ao Brasil

travessia atlantico sul.jpg

Os aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral empreenderam a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Partindo do Rio Tejo, em Lisboa.

Há um século, o primeiro centenário da independência do Brasil foi celebrado com um feito que está imortalizado por ter sido a ligação aérea primordial entre a Europa e a América do Sul e pelo uso de um método de navegação aérea inovador.


Published

By Francisco Sena Santos

Source: SBS



Share this with family and friends


Há um século, o primeiro centenário da independência do Brasil foi celebrado com um feito que está imortalizado por ter sido a ligação aérea primordial entre a Europa e a América do Sul e pelo uso de um método de navegação aérea inovador.


Nessa primeira viagem aérea sobre o Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, os marinheiros-aviadores portugueses Gago Coutinho (com formação como geógrafo) e Sacadura Cabral, numa operação conjunta da Marinha e da Força Aérea, voaram 4527 milhas em 62 horas e 26 minutos, entre 30 de Março e 17 de Junho de 1922.

Foi a primeira vez que numa navegação [aérea] se utilizaram as observações astronómicas e os cálculos astronómicos para permitir a cada momento a determinação com rigor da localização.

Qual era então o grande problema a superar? Era saberem onde estavam.

O problema que se levanta quando se está a voar é que o piloto tem de saber onde está para poder ir do ponto A para o ponto B.

travessia atlantico sul_rota.jpg
Um hidroavião monomotor especialmente concebido para a ocasião realizou o primeiro voo ligando Portugal ao Brasil em 1922

Naquela época, olhava-se para o solo, iam-se vendo os mapas e era possível ir de um ponto para o outro. Ora, tal não seria suficiente para uma viagem aérea transatlântica: não há marcas nenhumas em cima do mar, o mar parece todo igual.

O problema residia nisso: como é que os pilotos podiam ir de um ponto ao outro e saber onde estavam? Qual a importância disto? Se não fizessem a ligação previsa e a mais curta entre estes pontos, podiam ficar sem combustível para chegarem ao destino. Era, assim, fundamental arranjar uma forma de saber, com precisão, onde se estava.

Antes, apenas tinha havido (estávamos então em 1922) travessias oceânicas hemisfério norte.

Recorde-se que o avião nasceu com o século XX, o primeiro voo controlado mais pesado do que o ar, dos irmãos Wright, foi em 1903.

Nessas viagens anteriores, os norte-americanos usaram navios espalhados de 60 em 60 milhas. Já os ingleses tinham feito uma ligação mais curta, entre a Terra Nova e a Irlanda, e mesmo se cometessem erros estavam num sítio mais perto da terra do que estariam os portugueses no Atlântico Sul.

A opção de Gago Coutinho e Sacadura Cabral foi a de adaptar o sextante à navegação aérea. O sextante era originalmente um instrumento náutico concebido em meados do século XVIII.

Gago Coutinho e Sacadura Cabral conseguiram adaptar o próprio sextante para poderem voar, fazerem leituras de uma forma mais simplificada de modo a conseguirem saber sempre sua posição.

Mais: como a sua rota poderia ser influenciada pelo vento, inventaram um corretor de rumos. Este instrumento permitia de forma mais rápida determinar as correções a introduzir ao rumo do avião para averiguar o efeito do vento.

O percurso entre as duas margens do Atlântico é muito grande e, naquela altura, há 100 anos, não havia aviões (de facto, hidroaviões) que tivessem capacidade para fazer tanto tempo de voo.

Assim, para apoio à viagem foram postos à disposição dos comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral três navios de guerra: o cruzador República, o aviso 5 de Outubro e a canhoneira Bengo. O primeiro seguiria para Cabo Verde e seria o principal navio de apoio; os outros dois seguiriam para Las Palmas, devendo um deles regressar a Lisboa após a partida dos aviadores e o outro juntar-se ao cruzador República.

Tudo previsto, foi assim que a 30 de Março de 1922, às 7 da manhã, partia das águas do Tejo frente a Lisboa e subia lento, um aparelho monomotor Fairey F IIID MkII. Era só um hidroavião, mas era mais do que ele. Batizado “Lusitânia”, levava a bordo Gago Coutinho e Sacadura Cabral e tinha por roteiro um destino: por ares nunca antes navegados!

Decidiram que atravessariam o Atlântico na diagonal: Primeiro troço: Lisboa-Las Palmas, na programada ilha da Grã Canária. Depois, Arquipélago das Canárias-Cabo Verde: chegada a São Vicente, a ilha mais próxima. Viagem seguinte, a mais especial, longa e escondida: atingir o penedo de São Pedro, território brasileiro, mas uma pedrinha no meio do oceano. Com nada à volta, a quase mil quilómetros.

A seguir, mais outra ilha, Fernando Noronha, descida da costa brasileira, até à alegria imensa do encontro com o Rio de Janeiro. Segundo os relatos, foi a cidade inteira, então capital a recebê-los.

Assim resultou, no primeiro centenário da independência do Brasil, este abraço apertado entre os dois povos. Foi comovedor, heroico e histórico – com significado político.

Passaram mais cem anos, estamos no segundo centenário.

Desta vez não estão previstos feitos heroicos. Há uma controversa travessia do Atlântico do coração de Pedro I do Brasil, Pedro IV de Portugal– o coração conservado em formol vai para dois séculos.

Há em Portugal quem questione o modo como o espetáculo de celebração do bicentenário da independência está montado.

Há vozes que comentam ser mórbida a relevância dada ao coração embalsamado.

Há praticamente unanimidade na ideia de que o bicentenário da independência deve ser celebrado – pelos povos do Brasil, de Portugal, portanto também pelos representantes oficiais.

Há uma delegação portuguesa ao mais alto nível que viaja ao Brasil para as celebrações. É liderada pelo próprio presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

É referida por comentadores portugueses a necessidade de garantir que a participação na celebração não tenha qualquer envolvimento na campanha eleitoral em curso no Brasil.

É lembrada a comemoração do Primeiro Centenário.

Há precisamente 100 anos – Setembro de 1922 – António José de Almeida atravessou o Oceano Atlântico num navio para chefiar a delegação portuguesa nas celebrações.

António José de Almeida era o Presidente da jovem República portuguesa, proclamada apenas 12 anos antes.

Esteve ao lado de Epitácio Pessoa, então presidente brasileiro, nas celebrações no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Ambos exaltaram a fraternidade entre os dois povos.

Foram reconhecidos erros, prometeram procurar o melhor para os respetivos povos.

Então, o presidente Epitácio Pessoa proclamou o que fez manchetes em Portugal: “o 7 de Setembro não é só do Brasil, é uma data luso-brasileira”.

Inspiração para 2022.

Siga a SBS em Português no FacebookTwitter Instagram e ouça os nossos podcasts. Escute a SBS em Português ao vivo às quartas e domingos ao meio-dia ou na hora que quiser na nossa página.


Latest podcast episodes

Follow SBS Portuguese

Download our apps

Listen to our podcasts

Get the latest with our exclusive in-language podcasts on your favourite podcast apps.

Watch on SBS

Portuguese News

Watch now