Sensível, irreverente, cronista da condição humana, militante da liberdade e dos direitos das pessoas. Morto aos 76 anos após uma paragem cardiorrespiratória, Jorge Palma é, tem sido e certamente será, em mais de 150 canções e 18 álbuns, inspiração para sucessivas gerações de músicos, cantautores e intérpretes em português.
Não há na música portuguesa quem não goste muito da pessoa, da figura (ele dizia: do figurão) e da criação ao longo de meio século do imortal músico, compositor, poeta e intérprete Jorge Palma.
Com o rigor da formação clássica, também pianista de técnica apurada, ele cultivou a grande música, também, como ele dizia, de Mozart e Ravel a Chico Buarque e Bob Dylan.
Jorge Palma é um Bob Dylan português.
Sensível, irreverente, cronista da condição humana, militante apartidário da liberdade e dos direitos das pessoas, Jorge Palma é, tem sido, será certamente, em mais de 150 canções e 18 álbuns, inspiração para sucessivas gerações de músicos, cantautores e intérpretes em português, como, por exemplo, Samuel Úria.
Marcelo Rebelo de Sousa, ex-presidente da República, esteve num dos primeiros concertos de Jorge Palma, Vilar de Moura, nos anos 70. Seguiu-o ao longo do tempo. E relembra da doçura que o caraterizou sempre, doçura a par de irreverência.
Jorge Palma surgiu no começo dos anos 70, a cantar no inglês que então, era também em Portugal, língua da nova música de então. Depois, mesmo fora de Portugal enquanto o país teve ditadura, compôs e cantou sempre em português.
De formação clássica e inclinação rock, Palma, nascido em Lisboa a 4 de Junho de 1950, estreou-se a solo em 1972 com o single The Nine Billion Names of God, em inglês, inspirado num conto de Arthur C. Clarke.
Foi também em inglês, aliás, que cantou pelas ruas e estações de metro em Paris. Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan ou Paul Simon foram referências iniciais, mais tarde os Genesis ou os Yes.
A simpatia pela música francesa, posterior, não tinha sido imediata. “Muita gente me dizia que eu era parecido com o Gainsbourg e eu não gostava nada. Vi um espectáculo dele no auditório da Radio France e o gajo teve uma atitude com o público que se percebe depois que é pose. O público a assobiar e ele a mostrar-lhe o cu. Mas agora já gosto mais dele”.
O primeiro disco longa duração seria Com Uma Viagem na Palma da Mão, em 1975, composto em Copenhaga, onde tinha estado exilado para evitar a guerra colonial. Foi ele quem contou: “Na casa dos meus amigos, que tinham um piano de cauda. Foi lá que eu compus esse primeiro álbum e todo em inglês, porque ainda estava com a esperança, ingénua, de fazer carreira em Inglaterra. Quando voltei para Portugal, depois do 25 de Abril, achei que era um disparate estar a fazer um álbum em inglês e reescrevi-o todo em português."
Palma alcançou maior sucesso na década seguinte, anos 80, com O Lado Errado da Noite (1985), disco que incluía o single Deixa-me Rir, e com Bairro do Amor (1989). O seu último álbum, Vida, é editado em 2023, 12 anos após Com Todo o Respeito (2011). Foram 18 os discos, incluindo a colectânea Só (1991) ou Voo Nocturno (2007), passados em revista numa série de concertos em 2022, assinalando então meio século de percurso.
Somaram-se ainda os álbuns ao vivo, como No Tempo dos Assassinos (2002) ou o Ao Vivo no Johnny Guitar (1993) com o Palma's Gang (Zé Pedro, Kalu, Flak, Alex Cortez), avulsos como Encosta-te a mim (2007), os projectos Rio Grande e Cabeças no Ar, as colaborações com José Mário Branco ou os Blind Zero ou os concertos com Sérgio Godinho.
Se houvesse que pensar uma playlist a partir das tantas canções de Jorge Palma, poderia começar com "Ai Portugal, Portugal". Pode continuar com "Bairro do Amor", com a "Terra dos Sonhos", depois "Frágil", "Dá-me Lume", a seguir "A Gente vai Continuar".
Os filhos, Francisco e Vicente, já estão a ser continuadores de Jorge Palma, ainda que o pai deles seja único.
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