É Fernando, e ouvintes de SBS, a arte
contemporânea a mostrar as feridas do
mundo. É o que a partir deste fim de
semana e por três meses é mostrado na
Bienal de Arte Contemporânea em Coimbra,
no centro de Portugal, e neste ano de
2026, em sexta edição. A Bienal de Arte
Contemporânea em Coimbra é já um dos
grandes acontecimentos artísticos em
Portugal
e a ganhar dimensão internacional, tanto
que a Manifesta, uma das grandes mostras
europeias de arte contemporânea, decidiu
que a edição de 2028 vai ser
precisamente em Coimbra, juntando nesse
ano as duas bienais, a de Coimbra e a
Manifesta. Os arquitetos Desiré Pedro e
Carlos Antunes são os organizadores da
Tem este ano por tema três palavras:
segurar, dar, receber. A intenção é de
apelar à solidariedade e à reciprocidade.
A Bienal tem ampla criação editorial e
abre com um fim de semana de festa intensa
a percorrer os oito lugares de Coimbra
por onde a Bienal se distribui. O
principal é o vetusto Mosteiro de Santa
Clara, com dois longos corredores, cada um
com duzentos metros de extensão. É uma
espécie de coluna vertebral a partir do
qual se abre, é, o corpo da mostra que é a
Bienal. Carlos Antunes, criador desta
Bienal de Arte Contemporânea,
abre-nos aqui o programa do intenso fim de
semana de abertura.
Eu creio que vai ser uma, uma ina-início
de Bienal bastante,
-bastante intenso, bastante ambicioso.
-Costuma ser sempre.
É... Costuma ser sempre, mas eu este, este
ano, por razões evidentes, porque vivemos
num momento de grande convulsão
internacional,
é, e não podemos estar neutros. A
neutralidade é uma posição
discutível nesta, nestas alturas do mundo
e esta Bienal é tudo menos neutra sob o
ponto de vista político. Portanto, isto é,
ela inicia
como um grito de reclamação de um mundo
mais justo,
é, a partir de três núcleos, eu diria,
fundamentais, ainda antes do mosteiro, que
é ele mesmo o núcleo central. O núcleo da
Sereia, onde inicia,
é, esta exposição em torno das questões
ligadas à Palestina.
-Na parte alta de Coimbra?
-Na parte alta da, de Coimbra, na, na Casa
com o, com o Thomas Demand, é um dos mais
extraordinários artistas contemporâneos,
Forensic Architecture, um grupo que tem
tratado as questões das desigualdades a
partir dum processo analítico com base na
arquitetura e métodos de, de investigação
é, tentando escalpelizar os, as razões
pelo qual nós vivemos situações de tamanha
Tahir Batnirji, um, um artista palestino
com uma peça notável que recolhe, na
fotografa uma série infinita de chaves de
casas que já não existem, casas da
-Palestina que foram destruídas.
-Em Gaza, na Faixa de Gaza.
É uma peça, é uma peça muito comovente
porque, de facto, a partir daquelas chaves
nós podemos imaginar a tragédia da
destruição de um território, de uma
-cultura e de um povo.
-Fica desde já a ideia forte de, é,
-celebração da, da Palestina nesta Bienal.
-Absolutamente, absolutamente,
absolutamente. Diria que esta Bienal é um
grito contundente contra as desigualdades
do mundo. Ou seja, não é possível ser
neutros neste-- nunca é possível, em
alturas de grande conflitualidade, é
absolutamente indesejável.
Um eco do, um eco do clamor do Papa no, no
dia de Páscoa.
Absolutamente. É alinhado com esse sentido
de reclamar para nós a dignidade que, que
uma Bienal se deve fazer também.
Este é o núcleo inicial. Descemos às-- à
uma e meia da tarde, portanto começa, de
facto, muito cedo, porque é tão longo o
programa que tinha que ter que começar à
-uma e meia da tarde.
-À uma e meia da tarde deste sábado.
Deste sábado. Descemos para a sala da
cidade, onde está um vídeo extraordinário
é, uma das mais respeitadas artistas
contemporâneas, ju-judia, mas que também
reclama e tem lutado na sua condição de,
de judia contra as desigualdades e contra
as barbaridades nos, nos, nos territórios,
enfim, do Médio Oriente. Um vídeo que eu
recomendo vivamente. Eu diria que quase
valia a pena vir de qualquer parte do
mundo para ver este vídeo tão potente e
tão extraordinário.
-E que horas começou?
-Ele é. E depois, um momento que eu acho
que vai ser absolutamente marcante, que é
uma performance do Vasco Araújo, que, que
foi feita duas vezes. Foi feita em Lisboa,
no Mate,
com um grupo mais ou menos reduzido de
pessoas. Foi feita na Bienal de Pontevedra
e vai ser feita em Coimbra, que eu acho
que vai ser, de facto, um momento glorioso
e vai ser com muito maior escala,
que é, na verdade, um corso em que se
cantará o Va, Pensiero, é, do Nabucco.
-Nabucco, de Verdi.
-Nabucco, de Verdi. É, e acho que é, de
facto, um grito contra as desigualdades e
contra a opressão dos oprimidos.
-Dezenas de pessoas?
-Centenas de pessoas.
-Centenas de pessoas.
-Nós contamos pelo menos com duzentas
muito feita a partir dos coros da cidade.
Coimbra tem um número extraordinário de
coros, mas também todos aqueles que se
queiram voluntariamente juntar. Temos na
sala um dos voluntários que farão este
percurso desde a Igreja de Santa Cruz até
à, ao Mosteiro de Santa Clara. É uma
espécie de recriação laica-
-Uma procissão. Procissão laica.
-Da procissão de, de, de, da Rainha Santa.
Portanto, esse, todo esse imaginário nos
interessa. E a Bienal também serve para
repensarmos a própria iconografia da
cidade,
não, não de uma forma mimética, mas de uma
forma inventiva.
É, e nesse momento em que chegarmos ao
mosteiro, haverá um brevíssimo momento de
boas-vindas e abre-se as portas do
mosteiro e a Bienal, enfim, continuará
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