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O fim da década do presidente que abraçou e beijou grande parte dos portugueses

Costa welcomes Portugal’s President Marcelo Rebelo de Sousa at European Council in Brussels

Marcelo Portugal Gouveia entrega o cargo ao socialista António José Seguro, que governará o país em um mandato de cinco anos. (EPA/OLIVIER MATTHYS) Source: EPA / OLIVIER MATTHYS/EPA

Metódico, hiperactivo, hipocondríaco, culto, católico. Marcelo Rebelo de Sousa preferiu a rua ao gabinete do palácio, esteve sempre com as pessoas e dessacralizou a função de Presidente da República como mais alto magistrado da nação.


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A transição para o governo de António José Seguro marca o fim da década em que

Portugal foi governado pelo carismático presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Foram

dez anos em que Marcelo abraçou e beijou grande parte dos portugueses. Quem conta

é correspondente da SBS em português, em Lisboa, Francisco Sena Santos.

É, Fernando e ouvintes da SBS, os

portugueses estão na última semana de uma década de uma Presidência da República que

mudou a relação dos portugueses com os políticos. Marcelo Rebelo de Sousa

preferiu a rua ao gabinete do Palácio, esteve sempre com as pessoas, abraçou-as,

beijou-as, deu-lhes afeto. Ele dessacralizou a função de presidente da

República como o mais alto magistrado da nação. Marcelo, presidente, foi sempre um

ombro amigo, uma voz sempre disponível para a imprensa e apesar de com origem no

centro-direita, foi o fiel companheiro de viagem do governo mais à esquerda que a

democracia já teve e um dos governos mais à esquerda em toda a Europa, um governo

formado pelo Partido Socialista, é, e apoiado quer pelo Bloco de Esquerda,

esquerda extrema, e pelo Partido Comunista Português. Marcelo, metódico, frugal,

hiperativo, hipocondríaco, culto, católico, muito, divorciado, mergulhador,

professor universitário de Direito, estrela na televisão, simpático,

calculista, membro do Partido Social-Democrata, que irrita até mesmo o

próprio PSD, conservador que agrada aos revolucionários, trabalhador, muito,

generoso. Marcelo é tudo isto e muito mais. Tão à vontade a passar um dia com os

sem-abrigo, a chamar a atenção para a vida deles, como nos palácios da realeza

europeia. Marcelo Rebelo de Sousa, filho de um ministro da ditadura, que o batizou

Marcelo em homenagem ao último líder do regime, Marcelo Caetano, enquanto noventa

e nove por cento dos portugueses estão a dormir, o professor Marcelo Rebelo de

Sousa mantém-se acordado. O professor, que é presidente da República, ele utiliza a

noite para devolver chamadas no telemóvel, para responder a e-mails, para escrever

os seus discursos, que são quase diários. Deita-se às quatro da manhã, levanta-se às

sete. Marcelo é o presidente que entra no seu próprio carro, com ele a guiar, para

se dirigir aos locais devastados, os lugares no centro do país, em Leiria, em

Coimbra, para aí abraçar as vítimas das recentes depressões meteorológicas ou para

assistir ao funeral da mãe de um guarda da Presidência da República, ou para ir à

casa de um homem que passou vinte e sete anos sem abrigo a dormir na rua e assim

retribuir o convite para jantar na sua própria casa. Ele poderia tirar selfies

com cada um dos dez milhões de cidadãos residentes no continente português, se lhe

pedissem. Tirou-as com muitos. Na próxima segunda-feira, o professor, como ele é

conhecido, retira-se, retira-se definitivamente da vida política, deixa a

presidência e vai para casa. Talvez volte a dar aulas de Direito. Para a presidência

entra o calmo, discreto, rigoroso

António José Seguro, com origem no centro-esquerda. Há quem faça comparações

com a sucessão recente no Vaticano. Se Marcelo foi como o papa Francisco, Seguro

é Leão XIV.

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