A transição para o governo de António José
Seguro marca o fim da década em que
Portugal foi governado pelo carismático
presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Foram
dez anos em que Marcelo abraçou e beijou
grande parte dos portugueses. Quem conta
é correspondente da SBS em português, em
Lisboa, Francisco Sena Santos.
É, Fernando e ouvintes da SBS, os
portugueses estão na última semana de uma
década de uma Presidência da República que
mudou a relação dos portugueses com os
políticos. Marcelo Rebelo de Sousa
preferiu a rua ao gabinete do Palácio,
esteve sempre com as pessoas, abraçou-as,
beijou-as, deu-lhes afeto. Ele
dessacralizou a função de presidente da
República como o mais alto magistrado da
nação. Marcelo, presidente, foi sempre um
ombro amigo, uma voz sempre disponível
para a imprensa e apesar de com origem no
centro-direita, foi o fiel companheiro de
viagem do governo mais à esquerda que a
democracia já teve e um dos governos mais
à esquerda em toda a Europa, um governo
formado pelo Partido Socialista, é, e
apoiado quer pelo Bloco de Esquerda,
esquerda extrema, e pelo Partido Comunista
Português. Marcelo, metódico, frugal,
hiperativo, hipocondríaco, culto,
católico, muito, divorciado, mergulhador,
professor universitário de Direito,
estrela na televisão, simpático,
calculista, membro do Partido
Social-Democrata, que irrita até mesmo o
próprio PSD, conservador que agrada aos
revolucionários, trabalhador, muito,
generoso. Marcelo é tudo isto e muito
mais. Tão à vontade a passar um dia com os
sem-abrigo, a chamar a atenção para a
vida deles, como nos palácios da realeza
europeia. Marcelo Rebelo de Sousa, filho
de um ministro da ditadura, que o batizou
Marcelo em homenagem ao último líder do
regime, Marcelo Caetano, enquanto noventa
e nove por cento dos portugueses estão a
dormir, o professor Marcelo Rebelo de
Sousa mantém-se acordado. O professor, que
é presidente da República, ele utiliza a
noite para devolver chamadas no telemóvel,
para responder a e-mails, para escrever
os seus discursos, que são quase diários.
Deita-se às quatro da manhã, levanta-se às
sete. Marcelo é o presidente que entra no
seu próprio carro, com ele a guiar, para
se dirigir aos locais devastados, os
lugares no centro do país, em Leiria, em
Coimbra, para aí abraçar as vítimas das
recentes depressões meteorológicas ou para
assistir ao funeral da mãe de um guarda
da Presidência da República, ou para ir à
casa de um homem que passou vinte e sete
anos sem abrigo a dormir na rua e assim
retribuir o convite para jantar na sua
própria casa. Ele poderia tirar selfies
com cada um dos dez milhões de cidadãos
residentes no continente português, se lhe
pedissem. Tirou-as com muitos. Na próxima
segunda-feira, o professor, como ele é
conhecido, retira-se, retira-se
definitivamente da vida política, deixa a
presidência e vai para casa. Talvez volte
a dar aulas de Direito. Para a presidência
entra o calmo, discreto, rigoroso
António José Seguro, com origem no
centro-esquerda. Há quem faça comparações
com a sucessão recente no Vaticano. Se
Marcelo foi como o papa Francisco, Seguro
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