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O que está em jogo com o novo tarifaço de Trump ao Brasil

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Conversamos com Deborah Barros Leal Farias, professora de Ciências Sociais da UNSW. A brasileira que estuda os BRICS acredita que a presença do Brasil no bloco de nações emergentes tem tudo a ver com a nova ação de Trump. "Quem se beneficia do status quo, quer mantê-lo. Quem quer mudar, tem que se juntar com outros que têm a mesma visão."


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By Fernando Vives

Source: SBS


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Conversamos com Deborah Barros Leal Farias, professora de Ciências Sociais da UNSW. A brasileira que estuda os BRICS acredita que a presença do Brasil no bloco de nações emergentes tem tudo a ver com a nova ação de Trump. "Quem se beneficia do status quo, quer mantê-lo. Quem quer mudar, tem que se juntar com outros que têm a mesma visão."


Os brasileiros na Austrália amanheceram nesta quinta-feira com uma notícia bombástica a envolver o país de origem. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a cobrança de uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros que são exportados para os norte-americanos. A medida começa a valer em 1º de agosto.

O Brasil não é o único país a ter novas sanções anunciadas novamente. Outros sete foram notificados. Desde a segunda-feira, são 22 países com novas sanções.

White House Coverage
Donald Trump disse que a forma com que o Brasil trata o ex-presidente Jair Bolsonaro é "uma vergonha internacional", um ataque às eleições livres e ao direito de liberdade de expressão dos americanos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). EPA/WILL OLIVER POOL. Source: ABACA / Pool/ABACA/PA

Porém, nenhum destes com uma tarifa tão alta quanto os 50% destinados ao Brasil.

Trump enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicando as razões da alta tarifária. Na primeira frase do documento, ele disse que a forma com que o Brasil trata o ex-presidente Jair Bolsonaro é "uma vergonha internacional", e um ataque às eleições livres e ao direito de liberdade de expressão dos americanos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Esta seria uma primeira razão para essa taxação, mas não a única.

Na carta, o presidente americano também diz que a relação comercial com o Brasil é injusta com os Estados Unidos e as novas tarifas seriam necessárias para, entre aspas, “corrigir as graves distorções do sistema atual”.

Trump também afirma que, se por qualquer razão, Lula decidir aumentar as tarifas sobre produtos americanos, o valor escolhido será adicionado aos 50% que os Estados Unidos vão passar a cobrar do Brasil.

BRASILIA, LAUNCH CEREMONY OF THE FAMILY FARMING HARVEST PLAN 202
Lula declarou não achar "uma coisa muito responsável e séria um presidente da República de um país do tamanho dos EUA ficar ameaçando o mundo através da internet". (Photo by Mateus Bonomi/AGIF/Sipa USA) Source: AAP / Michael Nigro / Mateus Bonomi/Mateus Bonomi/AGIF/Sipa USA

O republicano afirmou ainda que as novas tarifas são necessárias para corrigir déficits comerciais supostamente “insustentáveis” contra os Estados Unidos, que são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, depois da China.

Esta informação está incorreta. Segundo a compilação de dados da série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o Brasil registra déficits comerciais com os Estados Unidos desde 2009, apesar do crescimento recente nas exportações brasileiras.

Lula usou as redes sociais para responder a Trump. Ele afirmou que "o Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém".

O presidente brasileiro declarou que o "processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais."

O mandatário também afirmou ser falsa a informação de o comércio bilateral ser desfavorável ao Estados Unidos ao citar informações do próprio governo americano, de que os Estados Unidos têm um superávit de 410 bilhões de dólares sobre o Brasil ao longo dos últimos 15 anos.

Brazil's Lula welcomes Indian President Modi in Brasilia
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília esta semana, durante reunião do BRICS. Brasil e Índia são dois dos líderes do bloco. (EPA/ANDRE BORGES) Source: EFE / Andre Borges/EPA

O tarifaço de Donald Trump é o novo capítulo da escalada de tensão entre Estados Unidos e Brasil, e pode ter a ver com os BRICS, a organização de cooperação política e diplomática dos países emergentes liderados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que luta por mais espaço na agenda global.

A décima sétima cúpula dos BRICS foi sediada pelo Brasil, no Rio de Janeiro, nos últimos dias. Trump prometeu no domingo aplicar uma tarifa adicional de 10% a qualquer nação que apoiasse o que chama de "políticas antiamericanas" do grupo.

Lula respondeu na segunda-feira a dizer não achar "uma coisa muito responsável e séria um presidente da República de um país do tamanho dos EUA ficar ameaçando o mundo através da internet". Lula também afirmou que o mundo não quer um imperador.

A fala de Trump sobre a questão do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pode ser interpretada como uma tentativa de interferência internacional na política brasileira. E não é a primeira polêmica do mandatário americano.

No início do ano, Trump falou diversas vezes que tinha um plano para anexar o Canadá aos Estados Unidos, o que gerou comoção nacional no vizinho do norte. O governo liberal de centro-esquerda canadense vinha mal nas pesquisas, mas acabou vencendo as eleições novamente após um discurso de união anti-Trump.

Deborah Barros Leal Farias
"Uma das poucas armas no controle de Trump é usar este sistema de tarifas, que até pros EUA não faz muito sentido pra economia local. Mas ele usa isso como um tipo de barganha", diz a professora Deborah Barros Leal Farias.

Para entender a escalada de tensão política e diplomática entre Brasil e Estados Unidos, ouvimos a professora brasileira Deborah Barros Leal Farias, que leciona na escola de Estudos Sociais da Universidade de Nova Gales do Sul.

Mestre em Relações Internacionais e Doutora em Ciência Política, Deborah Farias estuda governança global, América Latina e BRICS, entre outros temas.

Perguntei à professora se há algum risco de um "Efeito Canadá" ocorrer nas eleições presidenciais e legislativas brasileiras do ano que vem.

"Depende de quem vai ser afetado. No Canadá, o efeito foi absolutamente intenso porque a ideia (do Trump) era acabar com o país. Até quem simpatizava com certas ideias do Trump disse não."

"No caso do Brasil, depende do efeito que vai ter. Por exemplo, o agro brasileiro, provavelmente um dos mais afetados se esta tarifa vier a se concretizar, e gente que se identifica com as ideias dele. Se o bolso falar mais alto e perder dinheiro, pode ser que tenha um movimento anti-Trump. Mas está cedo. Quem não gosta do Trump, é mais um motivo pra não gostar dele. Quem for prejudicado no emprego, é possível que tenha uma visão nacionalista e queira alguém que coloque o Brasil como prioridade, não os Estados Unidos."

O momento geopolítico internacional está no cerne das ações do novo mandato de Donald Trump.

A professora relembra que o Brasil não vinha sendo um dos mais afetados pelo tarifaço norte-americano, mas entende que Trump usa as tarifas para ganhar influência em negociação, o que tem gerado instabilidade no comércio dos Estados Unidos.

"Esta tarifa no Brasil é mais uma em cima de centenas de países. O Brasil até que tinha tido sorte, se comparado com a Ásia, até porque esta tem dependência de venda de produtos pros EUA."

O Trump tem uma das poucas armas no controle dele é usar este sistema de tarifas, que até pros EUA não faz muito sentido pra economia local. Mas ele usa isso como um tipo de barganha pra conquistar alguma coisa."

O que muito se argumenta é que Trump usa tarifas mais como uma postura, para mostrar que está sendo duro e fazendo alguma coisa, mas que, na prática, toda a parte de negócios nos EUA tem reclamado, principalmente pela instabilidade.
Deborah Barros Leal Farias, professora de Ciências Socias da UNSW.

"Tem sido muito volátil, ele tá mais feliz, ele diminui, está com mais raiva, aumenta."

A professora Deborah Farias explica por que Trump enxerga os BRICS como uma ameaça.

"Primeiro porque tem China, que está na mira do Trump desde a primeira gestão dele. Não surpreende que quem esteja muito próximo e aliado à China na visão do dele, no que ele vê como aliado, se prejudique. Como acabou de haver a reunião dos BRICS, ficou mais em evidência. Isso deve ser colocado num radar maior que talvez não estivesse antes."

O bloco dos BRICS é uma prioridade para o governo Lula, mas as interpretações sobre a funcionalidade e relevância do bloco variam, inclusive pelas diferenças entre os integrantes em todos os aspectos.

Deborah Farias entende o bloco não precisa de homogeneidade para atingir seus objetivos.

"A verdade é que são países, grosso modo, insatisfeitos com a distribuição de poder global. Se você pensa no Conselho de Segurança, sistema de cotas do FMI, quem está na liderança do Banco Mundial... Existe, de certa forma, um retrato do mundo de 1945, quando muitas destas organizações e normas internacionais foram criadas."

"Cada organização interancional é criada baseada no que os países juntos querem. Não precisa ter um alinhamento total e completo. Sempre uso como exemplo a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que tinham Irã e Iraque, que entraram em guerra mas nunca saíram da Opep."

Fazer parte da mesma organização não significa alinhamento total nem harmonização de políticas públicas. O que vai você ter é países que cooperam no que eles querem, e no tema que eles querem. No caso dos BRICS, é desenhado pelos países principais para convergirem no que querem. No que não concordam, cada um faz o seu.
Deborah Barros Leal Farias, professora de Ciências Sociais da UNSW.

O Brasil tem a ganhar ou a perder ao fazer parte dos BRICS?

"Depende. Ganhar ou perder em comparação com o quê? O fato de pertencer a uma organização não necessariamente é bom ou ruim, depende do que o país consegue tirar proveito e se expandir."

Na minha opinião, até agora, o BRICS tem sido muito mais positivo que negativo porque tem poucas obrigações e coloca o Brasil num patamar de negociação com países foram deste eixo norte-atlântico de coletivamente fazer uma contrapartida a estes países que continuam se beneficiando deste mundo criado em 1945. Brasil sozinho não faz, Índia sozinha não faz, mas estes países juntos têm mais poder de barganha.

O que o BRICS tem de concreto é a criação do banco de financiamento, a ideia de sair de uma estrutura tradicional e abrir portas. Quem se beneficia do status quo, quer manter o status quo. Quem quer mudar, tem que se juntar com outros que têm a mesma visão.
Debora Barros Leal Farias, professora de Ciências Sociais da UNSW.

*Esta matéria usou informações da Agência Brasil, g1, CNN e Deutsche Welle.

Para ouvir a entrevista completa, clique no botão 'play' desta página.

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