Os portugueses entre manter a ideia do 25 de abril (com Seguro) ou a via populista ultra (com Ventura)

Candidates To Portugal's Presidency Second Round Election Hold A Campaign Debate In Lisbon

Os candidatos André Ventura (Chega)) and António José Seguro (Socialista). Credit: Horacio Villalobos/Corbis via Getty Images

Estas eleições presidenciais de domingo põem em jogo a consolidação do sistema político que emergiu da Revolução dos Cravos, em abril de 1974, ou se abrem as portas a alguém que o quer desmantelar.


O socialista António José Seguro é apontado em todas as pesquisas de intenção de voto como próximo presidente de Portugal, mas o rival ultradireitista Andre Ventura, candidato que pretende captar o voto dos ressentidos e dos que se consideram ignorados, pode beneficiar com o desconsolo de muitos portugueses pela falta de apoio eficaz do Estado na sequência da destruição provocada pela depressão Kristin, com ventos que tudo levaram.

Uma região com duas milhões de pessoas no centro de Portugal ficou em estado de calamidade. Algumas, só agora, quase 10 dias depois, voltam a ter energia elétrica, internet e água nas torneiras.

Neste 8 de fevereiro, os portugueses que há 10 dias estão confrontados com as consequências desta calamidade que expõe a debilidade do país perante a adversidade da meteorologia em vendaval, votam em algo mais do que a eleição de um novo chefe de Estado.

Vão decidir se consolidam o sistema político que emergiu da Revolução dos Cravos, em Abril de 1974, ou se abrem as portas a alguém que o quer desmantelar.

Nunca antes um candidato de fora dos dois grandes partidos tradicionais (o Partido Socialista e o Partido Social Democrata) esteve na final da eleição para Presidente da República Portuguesa desde 1986.

Estamos perante a encruzilhada mais importante dos últimos 50 anos, porque está aqui em causa a própria natureza do sistema político democrático, com um candidato, o nacionalista André Ventura, alinhado com a direita ultra, que combate todo o sistema do Estado português.

A preocupação com André Ventura é comum a todos os democratas. Utiliza o catecismo da extrema-direita internacional, ao qual acrescentou as fobias locais (os tribunais obrigaram-no a retirar cartazes desta campanha que diziam: “Os ciganos devem obedecer à lei”). Evoca o ditador Salazar e ataca “o regime de abril”.

É provocador, inteligente e um explorador eficaz dos ressentimentos e da nostalgia imperialista. Ele é também o fenómeno político de maior sucesso da democracia: em apenas seis anos, rompeu com o tradicional sistema bipartidário e tornou-se o segundo maior partido no Parlamento, à frente dos socialistas.

A directora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Marina Costa Lobo, acredita que “está em curso um processo de mudança no sistema partidário” na sequência da emergência do Chega como força central que aspira a dominar a direita.

Nesta legislatura, a Assembleia da República tem 70% dos seus lugares ocupados por quatro partidos de direita. Nunca antes a esquerda, fragmentada em cinco formações, sofreu uma posição tão fragilizada numa democracia. A questão é como é que o país da revolução poética, que defendeu uma ideologia de justiça social, liberdades e igualdade, se distancia sociologicamente destes valores de abril e se inclina para projetos com retórica racista e nacionalista.

A devastação causada pela depressão Kristin tende para fortalecer o voto em Ventura, embora sem pôr em causa a eleição de Seguro.

Seguro parte com 31,1% dos votos que obteve na primeira volta, há três semanas, contra 23,5% então de Ventura. Agora, as previsões apontam 60% para Seguro, 30% para Ventura. António José Seguro, 64 anos, professor universitário com atividade empresarial, antigo líder socialista, quebrou uma década de interregno político com a candidatura presidencial, posicionando-se na "esquerda moderada e moderna"

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É, o socialista António José Seguro é apontado em todas as pesquisas de intenção

de voto como o próximo presidente de Portugal, mas o rival ultradireitista

André Ventura, candidato que pretende captar o voto dos ressentidos, dos que se

consideram ignorados, pode beneficiar com o desconsolo de muitos portugueses pela

falta de apoio eficaz do Estado nestes dias, na sequência da destruição provocada

pela Depressão Christine, com ventos que tudo levaram. Uma região com dois milhões

de pessoas no centro de Portugal, Leiria, também partes de Coimbra e de Santarém,

ficou em estado de calamidade. Algumas dessas pessoas só agora, dez dias depois,

voltam a ter energia elétrica, internet e água canalizada nas torneiras. Neste

domingo, 8 de fevereiro, os portugueses, que há dez dias estão confrontados com as

consequências desta calamidade, que expõe, de fato, a debilidade do país perante a

adversidade da meteorologia em vendaval, votam em algo mais do que a eleição de um

novo chefe de Estado. Vão decidir se consolidam o sistema político que emergiu

da Revolução dos Cravos, em abril de 74, ou se abrem as portas a alguém que quer

desmantelar esse sistema. Nunca antes um candidato de fora dos dois grandes

partidos tradicionais, o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata,

esteve na final da eleição para presidente da República Portuguesa. Estamos perante

a encruzilhada mais importante dos últimos cinquenta anos, porque está aqui em causa

a própria natureza do sistema político democrático, com um candidato

nacionalista, André Ventura, alinhado com a direita ultra, que combate todo o

sistema do Estado português. A preocupação com André Ventura é comum a todos os

democratas. Ele utiliza o catecismo da extrema-direita internacional, ao qual

acrescentou as fobias portuguesas. Ele invoca o ditador, é, Salazar, a dizer:

"Portugal precisa de três Salazares", e ataca o regime do 25 de Abril. Ele é

provocador, mas é inteligente e um explorador eficaz dos ressentimentos e da

nostalgia imperialista. Repete que Portugal não deve pedir perdão por alguma

coisa do passado, designadamente a escravatura. Ele é também o fenômeno

político de maior sucesso da democracia. Em apenas seis anos, rompeu com o

tradicional sistema bipartidário, esquerda-direita, PS, PSD, e tornou-se o

segundo maior partido no Parlamento, à frente dos socialistas. A diretora do

Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Marina Costa Lobo,

acredita que está em curso um processo de mudança no sistema partidário português,

na sequência da emergência do Chega, como força central que aspira dominar toda a

direita. Nesta legislatura, a Assembleia da República, o Parlamento português, tem

setenta por cento dos lugares ocupados por quatro partidos da direita. Nunca antes a

esquerda, fragmentada em cinco formações, sofreu uma posição tão fragilizada em

democracia. A questão é: como é que o país da Revolução Poética, que defendeu uma

ideologia de justiça social, de liberdades, de igualdade, se distancia

sociologicamente desses valores, os do 25 de Abril, e se inclina para projetos com

retórica racista e nacionalista ultra? A devastação causada pela Depressão

Christine, tende para fortalecer o voto em Ventura, embora sem pôr em causa a

eleição de Seguro. Seguro parte com 31,1% dos votos que obteve na primeira volta, há

três semanas, contra, então, 23,5 de Ventura. Agora, as previsões apontam

60% para Seguro, muitos votos da direita para o socialista Seguro, 30%

para Ventura. António José Seguro, sessenta e quatro anos, professor

universitário, tem atividade empresarial, antigo líder socialista, quebrou uma

década em que se retirou da política com a candidatura presidencial,

posicionando-se, diz ele, na esquerda moderada e moderna.

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