O socialista António José Seguro é apontado em todas as pesquisas de intenção de voto como próximo presidente de Portugal, mas o rival ultradireitista Andre Ventura, candidato que pretende captar o voto dos ressentidos e dos que se consideram ignorados, pode beneficiar com o desconsolo de muitos portugueses pela falta de apoio eficaz do Estado na sequência da destruição provocada pela depressão Kristin, com ventos que tudo levaram.
Uma região com duas milhões de pessoas no centro de Portugal ficou em estado de calamidade. Algumas, só agora, quase 10 dias depois, voltam a ter energia elétrica, internet e água nas torneiras.
Neste 8 de fevereiro, os portugueses que há 10 dias estão confrontados com as consequências desta calamidade que expõe a debilidade do país perante a adversidade da meteorologia em vendaval, votam em algo mais do que a eleição de um novo chefe de Estado.
Vão decidir se consolidam o sistema político que emergiu da Revolução dos Cravos, em Abril de 1974, ou se abrem as portas a alguém que o quer desmantelar.
Nunca antes um candidato de fora dos dois grandes partidos tradicionais (o Partido Socialista e o Partido Social Democrata) esteve na final da eleição para Presidente da República Portuguesa desde 1986.
Estamos perante a encruzilhada mais importante dos últimos 50 anos, porque está aqui em causa a própria natureza do sistema político democrático, com um candidato, o nacionalista André Ventura, alinhado com a direita ultra, que combate todo o sistema do Estado português.
A preocupação com André Ventura é comum a todos os democratas. Utiliza o catecismo da extrema-direita internacional, ao qual acrescentou as fobias locais (os tribunais obrigaram-no a retirar cartazes desta campanha que diziam: “Os ciganos devem obedecer à lei”). Evoca o ditador Salazar e ataca “o regime de abril”.
É provocador, inteligente e um explorador eficaz dos ressentimentos e da nostalgia imperialista. Ele é também o fenómeno político de maior sucesso da democracia: em apenas seis anos, rompeu com o tradicional sistema bipartidário e tornou-se o segundo maior partido no Parlamento, à frente dos socialistas.
A directora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Marina Costa Lobo, acredita que “está em curso um processo de mudança no sistema partidário” na sequência da emergência do Chega como força central que aspira a dominar a direita.
Nesta legislatura, a Assembleia da República tem 70% dos seus lugares ocupados por quatro partidos de direita. Nunca antes a esquerda, fragmentada em cinco formações, sofreu uma posição tão fragilizada numa democracia. A questão é como é que o país da revolução poética, que defendeu uma ideologia de justiça social, liberdades e igualdade, se distancia sociologicamente destes valores de abril e se inclina para projetos com retórica racista e nacionalista.
A devastação causada pela depressão Kristin tende para fortalecer o voto em Ventura, embora sem pôr em causa a eleição de Seguro.
Seguro parte com 31,1% dos votos que obteve na primeira volta, há três semanas, contra 23,5% então de Ventura. Agora, as previsões apontam 60% para Seguro, 30% para Ventura. António José Seguro, 64 anos, professor universitário com atividade empresarial, antigo líder socialista, quebrou uma década de interregno político com a candidatura presidencial, posicionando-se na "esquerda moderada e moderna"
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