Durão Barroso definiu esta semana que Portugal viveu, nos últimos 50 anos, duas revoluções: a da Liberdade e Democracia, a 25 de Abril de 1974, e a do Desenvolvimento, em junho de 85, faz agora 40 anos. Nesta reportagem, Vésperas de Portugal na CEE (Comunidade Económica Europeia), a partir da música dos GNR, que marcou aquele tempo.
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Reportagem realizada por Francisco Sena Santos e Clara Almeida Santos
Portugal viveu no último meio século (de facto, nos últimos 51 anos) duas revoluções. A primeira, foi a de 25 de Abril de 1974, quando o Movimento dos Capitães, com imediata adesão popular maciça, derrubou a ditadura que se tinha arrastado por 48 anos com 13 anos de guerra colonial.
Muitos portugueses foram para o exílio, tantos enfrentaram repressão e prisão política, vigorou a censura e a liberdade ficou amordaçada. Os capitães do MFA, a 25 de Abril de 1974, triunfaram com um programa dominado por 3 “D”: democratizar, descolonizar, desenvolver.
A revolução de 1974 tratou os dois primeiros “D”: democratizou e descolonizou. O terceiro “D”, o do desenvolvimento, esperou uma dúzia de anos por outra revolução.
Em 1985, ficou assinada uma outra revolução: com a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE hoje União Europeia), ficou desencadeada a revolução que propiciou o terceiro “D”, o do desenvolvimento.
As políticas europeias de coesão tornaram possível que os portugueses deixassem de ter a vida mais pobre da Europa Ocidental.
O dia 12 de Junho de 1985 faz agora 40 anos: é o da assinatura, em Lisboa, do tratado de adesão à Comunidade Europeia. Foi, claro está, o assunto de abertura no principal telejornal da então televisão única em Portugal, a RTP.
A atmosfera era de exaltante euro-otimismo. Naquela manhã de 1985, dia de véspera de Santo António, lideres políticos da Europa de então, Mitterand, Delors, Gonzalez, Craxi, Andreotti, depois de terem pousado para a fotografia de família, junto à Torre de Belém, tomaram lugar no claustro do Mosteiro dos Jerónimos
Com cenografia cuidada para momento solene, ao contemplarem as figuras de animais exóticos que as viagens marítimas dos portugueses revelaram aos europeus e esculpidas em recantos do claustro, também eram testemunhas do alargamento oficial do rumo português: deixava de ser apenas o mar, passava a ser também a Europa, como país parceiro na CEE.
Era uma aspiração tão intensa e tão falada nos jornais, rádios e televisões que, uns cinco anos antes deste dia para a história, um músico, Vítor Rua, guitarrista de uma banda nascida à beira do Douro, perto do Porto, ele batizou-a de GNR ao pintar estas iniciais numa t-shirt.
Tinha ele 20 anos, estávamos em 1980, usou um tema que tinha escrito em inglês para outra banda.
E sobre o tema musical meteu a impaciência de nunca mais se entrar na CEE. Afinal, as negociações para adesão de Portugal tinham começado há três anos.
Tudo começou com um imprevisto – Vítor Rua estava a assistir a um concerto na Praça de Touros de Espinho e apareceu-lhe Francisco Vasconcelos, dirigente da EMI Valentim de Carvalho, a desafiar os GNR para gravarem um primeiro disco, um single. Mas tinha de ser em português. Vítor Rua pensou escrever aquele Portugal na CEE.
Portugal tinha pedido a adesão às Comunidades Europeias em 28 de março de 77. Os grandes trabalhos começaram a ser preparados.
No começo dos anos 80, sucediam-se em Bruxelas maratonas técnicas negociais em procura da harmonização de Portugal com as regras europeias; o jurista José Luís Cruz Vilaça era, naqueles anos (81,82), Secretário de Estado para a Integração Europeia – sabia porque é que em Portugal se queria muito ver o país na CEE.
A integração europeia significava a extraordinária oportunidade para transformação, modernização e ganho de prosperidade e futuro no país que se cotava como o mais pobre nesse grande clube europeu.
A adesão à comunidade europeia permitia que as pessoas e as mercadorias circulassem sem fronteiras na geografia do clube. Havia que ajustar o que Portugal tinha para exportar a esse grande desafio do mercado comum europeu.
A agricultura, com as pescas, era terra fértil da complexidade negocial, lembra outro dos protagonistas na grande afinação do encaixe de Portugal na Europa, o depois ministro do Planeamento, Luís Valente de Oliveira.
Nos tempos de noites em claro, com os tantos dossiês da integração a serem negociados em Bruxelas, numa garagem de Avintes, arredores do Porto, espaço adaptado a estúdios de gravação, a banda GNR, iniciais de Grupo Novo Rock, que já conhecemos, o grupo fundado, entre outros, por Vítor Rua e Alexandre Soares, tratava de procurar algum novo músico para a banda – e apareceu um tal Rui Reininho.
E assim, em 82, Reininho passou a ser a voz dos GNR, tocou-lhe dar muitas vezes voz ao Portugal na CEE, que antes ainda de ser realidade institucional, era êxito musical nas rádios e nas discotecas. O tema Portugal na CEE tocava na pessoa Rui Reininho, ele aspirava por um país que pudesse ficar livre da grande pobreza que tinha encontrado no dia-a-dia ao lado dele.
O tempo ia passando, as negociações prolongavam-se há 8 anos, entre avanços e recuos, quando, na madrugada de 30 de março de 85, uma cimeira europeia em Bruxelas decidiu o acordo que o então primeiro-ministro Mário Soares anunciaria às 8 da manhã nas rádios.
Proclamou que Portugal estava definitivamente aceite como membro da CEE, prometeu que, passados 5 anos, o país seria completamente diferente, para melhor.
Três meses depois, quando às 10:27 da manhã de quarta-feira, 12 de junho de 1985, Mário Soares assinou, por entre grande solenidade e diretos de rádios e televisões, a última folha daquele documento designado Tratado de Adesão da República Portuguesa e do Reino de Espanha à Comunidade Económica Europeia e à Comunidade Europeia de Energia Atómica.
Ficavam assim culminados 99 meses de labirínticas negociações – a Europa – com este 3º alargamento, passava a integrar 12 países marcantes na história do continente.
Tinham sido 6 os fundadores em 57: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. Os 6 passaram a ser 9 em 73, com a integração da Dinamarca, da Irlanda e do Reino Unido. 2º alargamento em 81, para a entrada da Grécia, livre da ditadura dos coronéis.
Faltava consagrar o apoio político também à viragem democrática na Peninsula Ibérica, demorou mais 5 anos, porque a negociação com a Espanha, país maior, envolvia muita complexidade.
Nas vésperas da assinatura do tratado, uma sondagem da Euroexpansão quantificava para 64% dos portugueses inquiridos: a vida no país iria ficar muito melhor.
Assinado o tratado, Portugal entrou na CEE, a 1 de janeiro de 1986.
40 anos de mudanças que incluíram o nome da comunidade, que hoje é a União Europeia. Este é apenas o primeiro episódio de uma série de histórias de um país que se fez europeu.
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