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Portugal e os 5 milhões de euros gastos no altar-palco para o Papa

Pope Francis

Palco-altar para o Papa: grandioso, caro, e no ar está a pergunta sobre se alguma vez voltará a ser utilizado. Source: Getty / Getty

Na visita à Portugal do Papa Francisco, para participar na Jornada Mundial da Juventude, está prevista a vinda de mais de um milhão de jovens de todo o mundo. O que está a causar turbulência e indignação é o custo multimilionário do cenário para o acontecimento.


As polémicas sucedem-se em Portugal, ao ritmo de uma por semana e a dominar a abertura e grande parte dos telejornais.

Começou por ser o caso da secretária de Estado no ministério das Finanças obrigada a demitir-se pela indignação que causou ter recebido uma indemnização de 500 mil euros da TAP para sair de um lugar na direção da TAP onde estava há apenas 3 anos, sendo que esta companhia aérea portuguesa está em emergência económica, sob milionária assistência financeira do Estado e com os trabalhadores a sofrerem cortes salariais.

Depois, uma outra secretária de Estado que, veio a saber-se, tem uma conta bancária penhorada no âmbito de um processo de corrupção movido ao marido que é presidente de um município.

A seguir o presidente de câmara detido, também por corrupção. E um secretário de estado investigado por ter pago 300 mil euros por uma obra inexistente.

Agora, o escândalo aparece ligado a um tema que parecia ser consensual: a visita a Portugal do Papa Francisco, para participar na Jornada Mundial da Juventude.

Está prevista a vinda de mais de um milhão de jovens de todo o mundo. O que está a causar turbulência e indignação é o custo multimilionário do cenário para o acontecimento.

Só um dos altares-palco a construir no lugar principal da celebração, à beira do rio Tejo, numa zona até aqui de depósito de contentores, tem o custo de mais de 5 milhões de euros. A revelação caiu como uma bomba ampliada pela fatura que globalmente ultrapassará os 80 milhões de euros e que, subitamente, tornou a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em tema de grande controvérsia.

O recinto principal da celebração tem cerca de 1700 metros de comprimento e situa-se no Parque Tejo-Trancão, entre os concelhos de Lisboa e Loures.

O palco da grande polémica, o tal que custa para já 5 milhões de euros tem o tamanho do campo de um estádio de futebol.

A polémica passa pelas grandes dimensões e pela pompa que encarece tudo para valores nada compatíveis quando tantos portugueses estão em dificuldades económicas pela alta inflação.

É um palco grandioso, caro, e no ar está a pergunta sobre se alguma vez voltará a ser utilizado.

É um palco com capacidade para acolher duas mil pessoas ao mesmo tempo, entre bispos, concelebrantes, membros da orquestra, convidados e outros. Só no palco, duas mil pessoas.

Este palco tem a altura de 9 metros de modo a garantir a visibilidade para a maioria dos peregrinos que vai estar no Parque Tejo; esse palco implica uma estrutura de suporte de nove metros elevada em três plataformas; tem elevadores para mobilidade reduzida; uma escadaria central; e ainda uma área de implantação de cinco mil metros quadrados.

Os custos são agravados pelo custo da cobertura escolhida para proteger as figuras protagonistas (o Papa,

o séquito papal, os cardeais e bispos, a orquestra e os coros)

da inclemência do sol que costuma ser escaldante naquela época de agosto, pico do verão.

Foi escolhida uma cobertura sofisticada cujo custo se aproxima dos dois milhões de euros.

Essa cobertura do altar-palco, que receberá o Papa Francisco e mais duas mil pessoas na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), tem uma altura que, na cota mais alta chega aos 23 metros, ou seja um prédio com 7 andares. Tem uma "expressão ondulada", a evocar as águas do Tejo ali ao lado.

 Essa pala da cobertura acompanhará o comprimento do palco, que rondará os 100 metros. Tem uma estrutura treliçada, com lonas brancas triangulares, com ângulos e posicionamento otimizados para assegurar o sombreamento adequado, mas também proteger de uma eventual chuva.

Na verdade, a cobertura é composta por duas ondas, servindo a "segunda onda", mais pequena, para dar sombra à área reservada à orquestra e aos coros.

Este palco desenvolve-se em três níveis distintos, unidos por rampas e escadas. "Pretende-se deliberadamente que as rampas produzam um movimento ascencional", diz a memória descritiva. Para os autores do projecto, o fluxo em ziguezague dos que acedem aos três patamares através das rampas é capaz de acrescentar "cor, expressão e movimento", o que não ocorreria "se o acesso ao palco fosse feito por escadas simétricas".

A organização, liderada pela câmara de Lisboa, em associação com a de Loures, o governo e a igreja, argumenta que parte do palco e a cobertura serão reutilizáveis para outros eventos" e que "a generalidade dos elementos que constituem palco e pala são reutilizáveis ou recicláveis". Contudo, terão de ser adaptados, nomeadamente a cobertura, que terá de ser "rebaixada para cotas que permitam a utilização noutros eventos de menor dimensão”.

A Câmara de Lisboa já anunciou que, depois do evento quer transformar aqueles terrenos num parque verde com 38 hectares e condições para acolher festivais como o Rock in Rio.

Mas o custo deste evento, estimado em 80 milhões mas com custos colaterais que quase duplicam o preço, está a gerar jogo de empurra sobre quem decidiu custos tão altos. Os dedos estão sobretudo apontados à Câmara Municipal de Lisboa cujo presidente é Carlos Moedas, ex-comissário europeu e uma das esperanças políticas do PSD agora na oposição ao governo PS.

Mas a JMJ tem mais custos, com outros recintos e outros palcos para aqueles primeiros seis dias de agosto em Lisboa: estão previstos eventos para os parques Eduardo VII e da Belavista, para o Terreiro do Paço e para a Alameda Dom Afonso Henriques. Sabe-se que está planeado outro palco para o Parque Eduardo VII, no coração da capital, mas cujo custo ainda não foi revelado.

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em alusão direta ao muito dinheiro que está a ser gasto recomendou que se respeite tanto a situação atual de aperto económico resultante da guerra na Ucrânia, como a propia personalidade do papa Francisco, “que é contrário a tudo o que seja ostentoso”.

Os programas de antena aberta aos ouvintes e espectadores nas rádios e televisões passaram a semana concentrados neste tema e a recolher o mal-estar ou mesmo indignação popular.

É generalizada a constatação de que aquele altar-mor simboliza no seu esplendor o distanciamento instalado entre as elites política e clerical e o povo, o que vai totalmente contra a mensagem principal do pontificado do Papa Francisco.

Num momento de crise económica, uma crise que afecta sobretudo os mais jovens e aqueles que têm profissões essenciais à vida da comunidade (professores, médicos, polícias, todos em lutas sindicais), o gasto em obras faraónicas deste género é visto como incompreensível.

Comentário da editora Ana Sá Lopes no jornal Público: Quando as instituições de um país estão insensíveis "ao ar dos tempos" abrem as comportas a todos os populismos.

No editorial de Amílacr Correia, também no Público, lê-se que “O Papa Francisco deve estar magoado

Os professores e auxiliares educativos e os pensionistas e reformados também terão razões para sentirem que há uma discrepância entre o país onde vivem e o país do altar do Papa.”

O comentador António Capinha consta no DN a “enorme falta de respeito das instituições (Câmara Municipal de Lisboa e Governo) pela situação financeira do país e pelas dificuldades económicas e sociais que uma parte considerável da população portuguesa está a viver. A atitude da CML ao atribuir uma verba de cinco milhões de euros para a construção de um palco revela a mesma insensibilidade social que a praticada, também, na atribuição de indemnizações de meio milhão de euros a administradores de empresas públicas.

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