O líder da oposição australiana, Angus Taylor, divulgou na terça-feira a nova política linha-dura de imigração que defenderá no parlamento.
No sistema político da Austrália, o segundo partido mais votado, no caso, a Coalizão partidária entre liberais e nacionais, ocupa o banco da frente, ou frontbench, no parlamento de Camberra e promove suas próprias políticas para o caso de voltar ao poder, em resposta às políticas do partido que está no comando.
Angus Taylor, líder dos liberais desde fevereiro, defende a deportação de imigrantes que não demonstrarem o que descreve como "valores australianos".
Ele também mencionou especificamente os refugiados palestinos a partir da ocupação de Israel que buscam proteção na Austrália.
"!O grupo de 1700 pessoas da Faixa de Gaza que se encontram aqui com vistos representa um alto risco para a nossa nação. Esse grupo deve ser reavaliado por completo, com muito mais rigor. O diretor-geral de segurança também foi franco sobre a crescente ameaça de interferência estrangeira na Austrália. Nossas portas estão abertas para pessoas que, longe de terem lealdade à Austrália, estão trabalhando ativamente contra a nossa nação."
O líder da oposição pretende aumentar a fiscalização sobre as pessoas que tentam entrar na Austrália vindas de países que, segundo ele, não são democracias liberais ocidentais.
"Por muito tempo, ignoramos a realidade da imigração e da integração. Aqueles que migram de democracias liberais têm maior probabilidade de aderir aos valores australianos em comparação com aqueles que vêm de outros lugares governados por fundamentalistas, extremistas e ditadores."
Taylor fala especificamente em vincular o que chama de valores australianos aos critérios de imigração.
"Para que um programa de imigração funcione no interesse nacional, ele deve discriminar com base em valores. Se um portador de visto prejudicar nossos valores democráticos, não respeitar a lei ou não respeitar esses valores fundamentais, será expulso da Austrália."
Entre as políticas de imigração, Angus Taylor propõe três medidas principais.
Primeiro, incluir sua definição de valores australianos no centro das leis de imigração, de modo que violações destes valores possam resultar em deportação.
Segundo, maior repressão a imigrantes não- autorizados a estarem em território australiano.
Terceiro, o fortalecimento dos processos de triagem para pessoas que solicitem visto para a Austrália.
A organização de direitos humanos Anistia Internacional condenou a nova política de imigração da Coalizão, classificando-a como divisiva, discriminatória e desumana.
O integrante da Anistia Internacional, Zaki Haidari, disse à SBS que a política revoga proteções já concedidas a pessoas que fogem de conflitos e do genocídio promovido pelo governo de Israel em Gaza.
"É profundamente preocupante para nós, como organização de direitos humanos, que uma nacionalidade ou pessoas de um país específico tenham sido escolhidas como alvo em uma política da Coalizão. A Austrália historicamente possui um dos sistemas de imigração mais rigorosos, que inclui testes de caráter e verificações biométricas antes da concessão de vistos. E qualquer pessoa que conseguiu escapar do genocídio em Gaza e chegou aqui em segurança passou por esse rigoroso sistema de verificação e está vivendo aqui há pelo menos dois ou três anos."
Numa tentativa de reduzir significativamente o número de imigrantes, a Coalizão planeja fazer novamente dos vistos de proteção temporária a forma dominante em território australiano. Ou seja, depois do período do visto concedido, o portador dele deve deixar o país.
Haidari, da Anistia Internacional, condena a medida, afirmando que os refugiados com vistos temporários na Austrália devem ter a oportunidade de considerar o país como seu lar e patrocinar a vinda de suas famílias e entes queridos, algo que, no momento, é impossível.
"Acho errado manter pessoas com visto temporário para sempre, e o sistema tem feito isso, mantendo pessoas com visto temporário por mais de uma década. Portanto, o sistema ainda existe, e é prejudicial ver a Coalizão instrumentalizando o mesmo regime que praticaram quando estavam no governo e puniram pessoas, inclusive eu, por mais de uma década."
Haidari, que é um imigrante do Afeganistão, afirma que a proposta traz perigos.
Ele crê que outras pessoas em situação semelhante à sua, quando se mudou para a Austrália, continuam a sofrer violações de direitos enquanto buscam segurança.
Ele diz que a Anistia Internacional está apelando por uma liderança que una as comunidades, e não por políticas divisivas.
O líder da oposição, Angus Taylor, afirma que, se sua política for implementada, todos os solicitantes de visto terão suas redes sociais analisadas.
"A Coalizão estabelecerá um centro de triagem de segurança aprimorado, utilizando todo o conjunto de recursos de inteligência, triagem e aplicação da lei. O centro impedirá a entrada de radicais, extremistas e terroristas em nosso país. Como parte do processo de triagem aprimorado, todos os solicitantes de visto deverão fornecer seus perfis de redes sociais ao fazerem a solicitação."
Isso inclui também tornar a proficiência em inglês um requisito para viver na Austrália.
De acordo com dados do Departamento Australiano de Estatísticas (o ABS), o índice de imigração para a Austrália caiu de 429.000 pessoas no ano fiscal de 2023-24 para cerca de 306.000 em 2024-25.
O governo trabalhista, no poder, também tem a meta de reduzir ainda mais estes números nos próximos anos.
Em um comunicado, o Ministro do Interior, Tony Burke, aifrmou: "Milhões de australianos vão se perguntar: por que os liberais têm um problema com seus pais, que não falam inglês fluentemente, mas são ótimos australianos?".
Haidari, da Anistia Internacional, define o rigor da política de imigração da Coalizão como uma imitação da triagem política implementada por Donald Trump nos Estados Unidos, sob o comando do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega).
O ICE, que tem uma abordagem agressiva de emboscar imigrantes, é acusado, entre outras coisas, de uso excessivo de força, detenções impróprias e sistêmicas com mortes durante a prisão, e falta de transparência em critérios e informações sobre detidos.
"Quando ele se refere a uma política semelhante à de Trump de examinar as contas privadas das pessoas nas redes sociais, é profundamente preocupante, e a Coalizão está visando apenas nacionalidades específicas em países específicos."
Haidari também acredita que as políticas de asilo e refúgio devem ser baseadas nas necessidades de proteção dos indivíduos, e não na região de onde vêm.
A proposta de Angus Taylor gerou forte reação negativa do Partido Trabalhista, do Partido Verde, de especialistas jurídicos e de grupos de direitos humanos.
A deputada independente Zali Steggall afirma que a proposta corre o risco de alimentar narrativas de ódio e divisivas sobre imigração.
O senador do Partido Verde, David Shoebridge, declarou que a proposta exclui ativamente pessoas com base no país de origem e, potencialmente, na religião.
Ele diz que a proposta reflete uma tendência mais ampla em direção a políticas de "extrema direita", classificando-a como a versão de 2026 da política da Austrália Branca, White Australia, que foi a política de imigração oficial do país do início do século 20 até o fim dos anos 60.
"A Coalizão acredita que reintroduzir elementos da Política da Austrália Branca é o caminho a seguir para a Austrália em 2026. Excluir ativamente pessoas com base em seu país de origem, potencialmente em sua religião, não é o caminho a seguir para a Austrália. A Austrália ganha muito com a imigração: a amplitude de talentos, a amplitude de experiências, a diversidade que a imigração trouxe para a Austrália, nos torna uma nação forte e orgulhosa."
O ministro da Indústria de Defesa, o trabalhista Pat Conroy, disse à ABC que o líder da oposição está em competição com o One Nation, de Pauline Hanson, que tem superado os liberais como partido de oposição preferido em pesquisas nacionais.
"Estamos apenas vendo uma tentativa desesperada de Angus Taylor de usar mensagens subliminares para se promover, tentando competir desesperadamente com o One Nation numa corrida ao fundo do poço."
—-
Para ouvir, clique no botão 'play' desta página.
Siga a SBS em Português no Facebook, X, Instagram e You Tube.
Ouça os nossos podcasts. Escute o programa ao vivo da SBS em Português às quartas-feiras e domingos ao meio-dia.
Assine a 'SBS Portuguese' no Spotify, Apple Podcasts, iHeart Podcasts, PocketCasts ou na sua plataforma de áudio favorita.












