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Solidariedade nas alturas: desconhecidos ajudam mães a viajar até os filhos na Austrália

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Na imagem, duas histórias em momentos diferentes: Paulo Cezar Ribeiro Junior com a mãe, Valniz Gonçalvez de Carvalho, que já fez a viagem para reencontrar o filho; e Fátima de Bitencourt Varela, que se prepara para visitar o filho Roger Bitencourt Varela na Austrália nos próximos meses (arquivo pessoal)

Trazer os pais para uma visita é um momento especial na vida de muitos imigrantes, mas a viagem pode ser um tormento, especialmente para os mais idosos desacompanhados. Pedidos de ajuda nas redes sociais são comuns nestas ocasiões. A SBS em Português ouviu famílias que receberam auxílio de desconhecidos na jornada, e também quem depois retribuiu. Porém, é importante ficar alerta para os possíveis riscos de pedir apoio a estranhos.


Vistos de residência permanente para pais na Austrália podem ultrapassar 50 mil dólares australianos por pessoa e levar anos, ou até décadas, para serem concedidos. Nesse cenário, as visitas temporárias acabam sendo a forma mais viável de manter os laços familiares.

As viagens entre os dois países são longas e, muitas vezes, incluem múltiplas conexões. Soma-se a isso a barreira do idioma, e até tarefas simples, como preencher o formulário de entrada no país durante o voo, podem se tornar desafiadoras para pessoas da melhor idade.

O meu filho foi pra Austrália para estudar. A princípio ele foi pra ficar seis meses. Aí ele gostou e foi ficando. Quando eu vi, se passaram sete anos. Aí, um belo dia ele me ligou e falou “mãe, você vai vir para cá me visitar”. Eu falei “meu Deus, tão longe!" E eu estava muito insegura. Normal, né? A gente sofre antes da hora
Dona Valniz visitou o filho na Austrália apenas uma vez, em 2018, ao longo dos 14 anos em que ele vive em Brisbane.
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O ofical de justiça Paulo Cezar Ribeiro Junior, 43 anos, que mora em Brisbane há 14 anos, com a sua mãe Valniz Gonçalvez de Carvalho, 64 anos, de São Paulo (arquivo pessoal)

É nesse cenário que surge uma rede de solidariedade entre brasileiros que nunca se viram antes e passam a se conectar, seja para encontrar alguém que acompanhe seus pais idosos durante a viagem ou para se oferecer e ajudar os pais de outras pessoas pelo caminho. Isso pode acontecer em grupos online, como o Trazendo Pais e Mães para a Austrália, ou até mesmo por acaso, nos aeroportos, momentos antes do embarque.

Eu estava sozinha no aeroporto de Guarulhos, aí chegou uma moça, que no caso é a Manu. Aí eu cumprimentei e perguntei para onde ela estava indo. E era justamente para Brisbane, a mesma cidade que o meu filho reside. Aí eu falei que eu não falava inglês, e se eu poderia ficar com ela. Ela falou que sim e me auxiliou durante toda a viagem. A gente cruzou os oceanos juntas e parecia que a gente já se conhecia há muito tempo.
Dona Valniz, 64 anos, manicure
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Dona Valniz diz que mantém a amizade com Manu (lado direito da foto) até hoje, desde 2018 quando se conheceram no aeroporto, apesar de ambas morarem em diferentes países (arquivo pessoal)

Sendo assim, desconhecidos oferecem apoio, companhia, carinho e gratidão em uma das jornadas mais importantes para quem vive longe da família: a visita dos pais brasileiros para rever filhos imigrantes que vivem na Austrália.

A emoção de reencontrar meu filho foi muito forte. Chorei bastante. Só quem passa por esta situação vai entender. Lembrar do nosso encontro chega a me doer o coração. Quando eu o abracei, eu pensei que eu estava sonhando. Se Deus quiser, em breve eu estarei lá novamente
Dona Valniz ficou emocionada durante a sua entrevista ao podcast.

Ao decidir viajar ao Brasil para acompanhar a mãe de volta após a visita à Austrália, Paulo conheceu no aeroporto de Brisbane, outra mãe que viajava sozinha e se ofereceu para ajudar. Ao fim, os três seguiram juntos no retorno.

Pra mim é muito gratificante ajudar alguém. Eu praticamente estava retribuindo aquilo que fizeram com a minha mãe, então isso me deixou bastante feliz
Paulo conta no podcast que preparou um “kit de sobrevivência” para a mãe, com orientações em português e inglês e itens básicos para ajudá-la caso viajasse sozinha, mas felizmente ela conseguiu companhia.

Experiência profissional e pessoal sobre o tema

Este tipo de viagem para a melhor idade tem um significado muito especial, segundo a psicóloga Patricia Martins, de 38 anos, que reside em Melbourne.

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Maria Martins de Jesus, 66 anos, e sua filha, a psicóloga Patricia Martins, segurando no colo a neta que a avó veio visitar em 2026 (arquivo pessoal)
É importante pensar que uma viagem para uma pessoa mais idosa pode ser muito significativa, porque é uma memória que pode ser a última com os filhos, já que não temos certeza de quando será a próxima viagem
Patrícia, que vive em Melbourne há mais de 10 anos.

Patrícia relata no podcast que a sua mãe recebeu ajuda de uma estudante internacional que estava vindo no mesmo voo do Brasil para Austrália. Ela relembra que ambas não falavam inglês na época, mas se ajudaram e enfrentaram a situação juntas.

A psicóloga também ressalta a importância de buscar alguém para acompanhar os pais nesse tipo de viagem:

Toda experiência compartilhada, fica mais fácil de ser vivida. Porque a gente pode compartilhar os anseios, medos e inseguranças. E só o fato da gente falar e ter alguém que está vivenciando uma experiência similar, isso já alivia um pouco, porque a gente se sente visto e entendido. É interessante pensar nessa perspectiva de como tudo que é compartilhado, dói menos
Patrícia disse no podcast que sempre que pode oferece ajuda no aeroporto para pais de desconhecidos.
Fatima e Roger
Fátima e o filho Roger se despedindo no aeroporto do Brasil quando ele a visitou em 2025 (arquivo pessoal)

Procurando alguém para acompanhar a minha mãe

O pesquisador brasileiro Roger Bitencourt Varela, de 34 anos, vive em Brisbane há mais de sete anos e se prepara para receber a mãe, Fátima de Bitencourt Varela, de 58 anos, em sua primeira visita à Austrália. Para garantir mais tranquilidade durante a viagem, ele encontrou alguém para acompanhá-la e diz estar mais seguro com essa escolha.

Eu lembrei que uma amiga minha falou que o irmão dela estava vindo pra cá. E foi aí onde eu mandei mensagem para ela perguntando se ele não se importaria de ajudar a minha mãe. Depois que ele concordou, eu comprei as passagens exatamente no mesmo dia e horários
Roger conta no podcast que a combinação de uma viagem longa, múltiplas conexões e a dificuldade da mãe com o idioma fez com que ele buscasse alguém para acompanhá-la, especialmente em caso de atrasos ou mudanças no trajeto.

E quem também aprovou a ideia foi a mãe, que mora em Santa Catarina. Em entrevista ao podcast, Fátima contou que faz amizade com facilidade e já planeja conversar pelo WhatsApp com o futuro acompanhante para quebrar o gelo antes da viagem.

Na ida eu vou fazer quatro conexões: Porto Alegre, São Paulo, Chile, Sydney e Brisbane. E eu vou em companhia de alguém que eu não conheço. Mas, bora lá. Me aguarde, Austrália! Eu falo a linguagem do amor. E quem fala a linguagem do amor é bem recebido aonde vai
Fátima conta que pretende assistir filmes, fazer orações e comer bastante durante a viagem de avião.

Histórias como essas mostram que, mesmo em viagens longas e desafiadoras para pais e mães idosos, o caminho pode ser compartilhado.

O que eu tenho para dizer para os pais e mães que precisam viajar para a Austrália sozinhos pela primeira vez é: sigam em frente! A gente sempre encontra alguém do bem que possa ajudar. O que aconteceu comigo pode acontecer com todos
Dona Valniz encerrando a sua entrevista para o podcast.
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A advogada de imigração Danuzia Pontes, 46 anos, de Sydney, alerta sobre os possíveis riscos dessa prática (arquivo pessoal)

Ainda assim, é sempre importante ter cuidado em relação ao tema

O podcast também traz a visão da advogada de imigração Danuzia Pontes, que reside na Austrália há 25 anos.

Principalmente em viagens internacionais, a gente precisa ter muita cautela na questão de segurança. Se você cai nas mãos de uma pessoa errada, ela pode cometer fraude com os dados dos seus pais, como tirar foto do passaporte ou ter acesso ao celular. Ou até mesmo colocar alguma coisa na mala, como drogas. Não é porque a gente está no aeroporto que é seguro, pelo contrário, ali tem pessoas do mundo todo.
Danuzia Pontes

A advogada aconselha que, sempre que possível, os próprios filhos devem acompanhar os pais idosos nas viagens ao visitarem o Brasil ou voltarem para a Austrália.

Não quero dizer que não existam pessoas honestas no mundo, existem sim! Eu mesma já ajudei muitas pessoas em aeroportos, assim como eu já fui ajudada também. Porém, você precisa tomar muito cuidado com isso
Danuzia também sugere que contar com um amigo de confiança, que viaje na mesma data, pode ser uma boa alternativa para acompanhar parentes idosos.

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Aperte o 'play' para ouvir a entrevista completa.

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