A tradutora australiana Alison Entrekin recebeu a Ordem do Rio Branco, uma das mais altas honrarias concedidas pelo governo brasileiro a pessoas que contribuem para a projeção internacional do país. Alison agora prepara aquele que é considerado seu maior desafio: uma nova tradução de 'Grande Sertão: Veredas', de Guimarães Rosa. O livro será lançado em 2027 com o título Vastlands: The Crossing.
Alison Entrekin é considerada uma das principais responsáveis por levar a literatura brasileira ao público de língua inglesa.
Ao longo da carreira, traduziu autores como Clarice Lispector, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva. Mas o projeto que mais mobilizou leitores, críticos e editoras internacionais foi a nova tradução de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
A obra será lançada em janeiro de 2027 com o título Vastlands: The Crossing, simultaneamente no Reino Unido, Austrália e países do Commonwealth, e nos Estados Unidos. O projeto consumiu mais de uma década de trabalho.

“Entre os tradutores, a gente fala muito que a gente é embaixador da literatura de um país. Com esse reconhecimento, condecorar a Orfdem do Rio Branco a uma tradutora, o governo percebeu o impacto que tem a tradução literária na exportação da cultura brasileira”, afirmou.
Considerado um dos livros mais complexos da língua portuguesa, Grande Sertão: Veredas desafia tradutores há décadas por causa da linguagem inventiva de Guimarães Rosa, marcada por neologismos, regionalismos e construções que rompem as regras tradicionais da gramática.
Entrekin rejeita a ideia de que a obra seja intraduzível. “Tudo é traduzível. O que é, é uma reconstrução do livro. É quebrar o vaso, pegar todos os caquinhos e reconstruir o vaso em outra língua”, explicou.

“Eu fiz estudo muito profundo de como ele criava. E depois, na minha recriação da obra dele, eu somente joguei dentro das regras dele”, disse.
“Quando as coisas funcionam, a gente sabe na hora. Parece uma palavra que existe. Só que não”, afirmou.
A tradução de Grande Sertão: Veredas será publicada pela Simon & Schuster nos Estados Unidos e Canadá e pela Bloomsbury no Reino Unido, Austrália e outros mercados de língua inglesa. Uma nova tradução alemã e outra árabe da obra também devem ser lançadas no mesmo ano.

Eu me sinto mais em casa no Brasil do que na Austrália
A convivência de quase 25 anos com a língua e a cultura brasileiras também transformou a própria relação de Alison Entrekin com o inglês.
Durante a entrevista, a tradutora contou que o mergulho profundo no universo de Guimarães Rosa alterou até a forma como pensa as palavras. “Eu já me peguei inventando palavras”, revelou.
Segundo ela, depois de tantos anos estudando a liberdade criativa de Rosa, ficou mais difícil separar o que “existe” do que poderia existir na língua. O processo aparece de forma clara na tradução de neologismos do autor mineiro.
Para recriar “turbulindo”, por exemplo, Alison inventou em inglês a palavra “awhirmoil”.
"Turbulindo: Turbulir é um verbo hipotético derivado do substantivo “turbilhão” e do verbo “bulir”. Combinei “whir”, “awhirl” e “turmoil” para criar awhirmoil," explica.
O resultado mostra não apenas domínio técnico da tradução, mas também uma absorção profunda da inventividade da literatura brasileira, a ponto de incorporar ao próprio idioma o espírito experimental de Guimarães Rosa.
Agora, enquanto finaliza as últimas revisões de Vastlands: The Crossing, Alison Entrekin vê seu trabalho ocupar um espaço raro: o da tradução literária reconhecida como ponte cultural entre países e línguas.
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