Ex-morador de rua na infância, Mestre Roxinho é criador do premiado Instituto Bantu Cultural e um dos promotores da Capoeira Angola na Austrália. Atualmente, a expressão afro-brasileira que mistura arte marcial, dança, música e cultura faz parte do programa de NSW de reabilitação de jovens refugiados que passaram por traumas. Em visita a Sydney, onde lança seu livro 'É Gingando que se Aprende', ele conversou com a SBS em Português em companhia do contramestre australiano George Pearson, que mantém o projeto social.
A sede do Instituto Cultural Bantu, na Ilha de Itaparica, na Bahia, tinha um problema muito prático a ser enfrentado. As ruas do bairro, típico de periferia brasileira, não são asfaltadas. Foi então que Mestre Roxinho, o idealizador do Projeto Bantu, teve uma ideia: e se a gente mobilizar a comunidade para dar um jeito nesta rua?
Foi assim que pneus velhos viraram moldes para a base de cimento. Com engajamento e muito trabalho da população local, a rua que dá acesso ao instituto passou a ter pavimento artesanal, de qualidade bastante razoável. E as ruas do entorno estão passando pelo mesmo processo.
A capoeira é, desde sua nascença, uma ferramenta de empoderamento, comunhão social e transformação, de se compreender as fraquezas e fortalezas e saber lidar com essas emoções. Aos refugiados, cria uma ponte para o pertencimento na Austrália. Uma pessoa que se sente fora do lugar em que está, vai quebrar.Mestre Roxinho.
Mas... você pode estar se perguntando: o que isso tem a ver com a Austrália?
Bom, muita coisa.

Edielson Miranda, o Mestre Roxinho, passou mais de 15 anos na Austrália desenvolvendo a prática da Capoeira Angola, o estilo mais tradicional da expressão afro-brasileira que mistura arte marcial, dança, música e cultura.
A solução coletiva para resolver o problema da rua vem da ginga. A ginga que é pilar fundamental da capoeira, e da brasilidade como um todo. No Brasil, ter ginga na vida muitas vezes é a diferença entre ter ou não o que comer no dia.

A ginga é o tema do novo livro de Mestre Roxinho chamado "É Gingando que se Aprende: Capoeira Angola Como Tecnologia Social de Transformação Comunitária", cujo lançamento em Sydney será no Centro Cultural Brasileiro em Marrickville, nesta quarta-feira, 2 de setembro, a partir das 18 horas.
A SBS em Português recebeu Mestre Roxinho e o seu amigo e contramestre australiano George Pearson, o Jorge, para falar sobre o livro e de como a ginga aprendida na capoeira é fundamental na vida de centenas de jovens radicados na Austrália.
A capoeira vem dos escravizados de diversas etnias africanas que precisavam se comunicar. O corpo se torna a língua dessas pessoas. O movimento corporal se torna a potencialidade de se manterem juntos, de se fortalecerem para permanecerem no país que não era o deles, pois estavam enfraquecidos de forma identitária.Mestre Roxinho.
Isso porque a dupla levou a manifestação cultural afro-brasileira para o STARTTS, sigla em inglês para o Serviço de Tratamento e Reabilitação de Sobreviventes de Tortura e Trauma, um programa do estado de Nova Gales do Sul para jovens refugiados que passaram por traumas severos.
O programa de capoeira angola chegou a atender centenas de jovens em escolas de todo o estado, mas acabou perdendo fôlego durante a pandemia. Contudo, segue vivo com planos de expansão.
Nesta conversa com a SBS em Português, George Pearson contextualiza como trata a capoeira no programa STARTTS. E Mestre Roxinho conta um pouco de sua história, de como o menino de seis anos que vivia nas ruas de Salvador posteriormente acabaria criando o Projeto Bantu, que hoje existe também na Austrália e nas Filipinas. Uma história que só a ginga pode explicar.
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