O canoísta de Viana do Castelo conquistou dois ouros no Mundial de Lodz e já soma 187 medalhas na alta roda internacional, incluindo Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo e da Europa. Aos 37 anos, agora mira-se para Los Angeles 2028.
O desporto português tem nomes que alcançaram o estatuto de lendas mundiais, sobretudo no futebol. São os casos de Eusébio, de Cristiano Ronaldo, Luís Figo, mas também no atletismo, Carlos Lopes e Rosa Mota, medalhas de ouro olímpico nas longas distâncias. O ciclismo com Joaquim Agostinho.
Há um nome que por estes dias está a levantar a questão sobre se não será o melhor atleta português de sempre.
A emoção do momento pode levar às hipérboles, mas é um facto que o canoísta Fernamdo Pimenta é o atleta português mais medalhado de sempre, incluindo Jogos Olímpicos, Cmpeonatos do Mundo e da Europa. Ele, Fernando Pimenta, já conquistou 187 medalhas na alta roda internacional, 14 delas de ouro, as últimas duas no passado fim de semana, em Lodz, na Polónia, onde conquistou, no sábado, o título de campeão do mundo de K1 1000 metros, e, no domingo, K1 5000 metros.
Na prova de K1 1000 metros, Fernando Pimenta teve concorrência forte, impôs-se sobre a linha de meta ao húngaro Kopasz e ao australiano Thomas Green, que foram medalhas de prata e de bronze. Pimenta arrebatou o ouro.
No dia seguinte, domingo, era dia para este matulão que em rapazote surgiu desengonçado na canoagem, virando barcos amiúde, fazer-se à outra medalha nestes Mundiais. Agora nos 5000 metros, distância folgada que testa a resistência e não tanto a velocidade, Fernando Pimenta respeitou o que lhe é habitual. De boné vermelho, atirou-se logo à liderança.
Manteve a canoa amarela na dianteira de um cardume de outras 30 até à primeira das portagens - uma doca flutuante onde os atletas têm de sair, pegar na canoa com uma mão, o remo na outra, correr uns metros arcando com o peso para voltarem a pular dentro lá mais à frente. Poço de músculos, o português perdeu alguns segundos, retornou à água do Lago Malta, em Poznań, em modo perseguidor. Mas pouco demorou, mecânico na pagaiada, a reclamar à frente da corrida para não levar com a água picada por canoas alheias.
O filme repetiu-se mais ou menos nestes moldes ao longo dos 5000 metros: quando na água ninguém podia com Fernando, só se a força locomotora passava aos pés na portagem é que alguém lograva aproximar-se.
Quando soou o gongo da última volta era o mais medalhado da história da canoagem, quem se mantinha na proa do grupo, robótico, sem uma ruga se alterar na sua face, nem quando o sul-africano Lovemore, o mais ativo dos seus caçadores, atacou nos últimos 200 metros a ver se o apanhava desprevenido. Qual quê, o português reforçou a pagaiada, acelerou, permitu apenas que o sul-africano ficasse a um terço de canoa de o igualar, só isso, quando muito poderia ousar a ficar paralelo ao português. Nunca uma ultrapassagem pareceu possível.
E no final, sereno nos gestos, ergueu um braço com dois dedos esticados, o número dos títulos mundiais conquistados nesta prova. Quando alcançou a doca, despiu a licra, fletiu o seu arcaboiço, os presentes puderam ver recortado num corpo o fruto da dedicação de um tipo que treina três ou quatro vezes ao dia, com jornadas de seis, sete ou oito horas de labuta, para estes momentos.
E assim, este canoísta de Ponte de Lima conquistou o seu 14º título de campeão do mundo.
Fernando Pimenta está com 37 anos, idade que lhe vale ser chamado de avô, tem dois filhos pequenos que também já estão na canoagem. Próximo objetivo: os Jogos Olímpicos de 2028 em Los Angeles.
A receita para o êxito está aqui, deixada pelo treinador Hélio Lucas: “Há dias que treinamos oito horas por dia. Fazemos dois treinos de manhã, outros dois à tarde, estamos a falar de oito horas com muita carga e com bastante intensidade e o Fernando precisa de recuperar e fazer outros tipos de trabalhos, que não são horas contadas, como fisioterapia, mobilidade, alongamento, crioterapia, uma série de rotinas que é preciso ter.”
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