Estudo da Universidade de Melbourne com mais de 3.400 jovens a partir dos 13 anos revela que adolescentes australianos demonstram atitudes hostis às mulheres em nível maior que seus avós, associadas ao consumo de conteúdo da "manosfera" e a discursos extremistas. Em entrevista à SBS em Português, a doutora Ana Borges Jelic, pesquisadora do Centro de Excelência para Prevenção da Violência contra a Mulher da Universidade Griffith, analisa os fatores por trás do fenômeno e orienta pais, educadores e famílias imigrantes sobre como agir.
Pontos principais
- Misoginia entre adolescentes cresce mais que na geração dos avós, aponta pesquisa australiana.
- Entre garotos de 13 a 17 anos, 31,8% acreditam que as tentativas de dar oportunidades iguais às mulheres "foram longe demais".
- Brancos, indígenas australianos, asiáticos, latinos e outros grupos demonstraram atitudes misóginas e permissivas à violência contra mulheres, com variação de intensidade, mas presentes em todas as comunidades.
- Mesmo quando o extremismo tem motivação religiosa ou étnica, é a atitude misógina do jovem — e não sua origem cultural — que segue sendo o preditor mais forte de apoio à violência extremista, diz a pesquisa.
Uma nova pesquisa da Universidade de Melbourne trouxe um dado que chocou especialistas em prevenção da violência de gênero: adolescentes têm hoje mais chances de demonstrar atitudes hostis às mulheres do que a geração de seus avós. O levantamento, feito com mais de 3.400 jovens a partir dos 13 anos, associa a misoginia crescente ao apoio a ideias extremistas, à aceitação da violência e à exposição constante a redes sociais e influenciadores da chamada manosfera.
"O resultado da pesquisa é chocante, mas não é surpreendente para quem trabalha na área. A gente entende que a misoginia já existe nas gerações anteriores, então a gente tem uma piora, a gente não tem uma aparição de um fenômeno", explica a doutora Ana Borges Jelic, pesquisadora associada do Centro de Excelência para Prevenção da Violência contra a Mulher da Universidade Griffith, em Brisbane.

Segundo ela, dois fatores explicam a precocidade do problema: a internet, "um ambiente que a gente sabe que é tóxico e cujos algoritmos radicalizam progressivamente o conteúdo consumido, e a perda da esperança dos jovens em relação ao futuro — emprego, moradia e clima —, que os empurra para discursos conservadores de resgate de "direitos do passado."
A pesquisadora também relaciona o fenômeno a um "backlash" contra os avanços femininos, como o movimento Me Too. "Existe um movimento contrário que é de homens adultos que vendem suas ideias - mais uma vez de homens adultos - para crianças e adolescentes", diz, citando o influenciador Andrew Tate, atualmente preso em Miami, como exemplo de um discurso adulto retrógrado empacotado para um público jovem e mais vulnerável.

Sobre a manosfera, Ana explica que o conteúdo online vende três promessas a adolescetnes numa fase crítica e de formação de suas vidas: o corpo perfeito, o lucro fácil e o direito do homem de dominar a mulher. "Ele não vai conseguir entregar o dinheiro, ele não vai conseguir entregar o corpo perfeito, mas ele vai conseguir entregar frustração paro menino", afirma.
Esse padrão já aparece no dia a dia escolar.
Daniel Príncipe, educador do DART (Instituto de Recursos e Capacitação sobre Violência Doméstica), contou ao programa Life Matters, da ABC, que estudantes do 6º ao 8º ano relatam ver mensagens dizendo que "o lugar da mulher é na cozinha" ou que "as mulheres são interesseiras".
"Quando pergunto se estão vendo esse conteúdo em seus feeds na internet, todos os meus alunos levantam a mão", relata. Segundo ele, os próprios meninos dizem ter medo de conversar com mulheres na vida real — resultado, segundo Príncipe, de uma visão do sexo oposto "moldada por homens ressentidos na internet".
Apesar do cenário, a doutora Ana mantém uma leitura otimista. "A gente teve backlash nos anos 70, 80, muito daquilo se superou", lembra, citando conquistas como o direito ao divórcio e à carreira, hoje normalizadas. Para ela, o próprio backlash atual é sinal de que os avanços femininos incomodam — e tendem a prevalecer.
A autora da pesquisa, professora Sara Meger, defende intervenção precoce. "Precisamos intervir mais cedo e melhorar a forma como nos comunicamos com os meninos, para que eles desenvolvam um pensamento crítico antes de entrar em contato com esse conteúdo", recomenda, defendendo educação obrigatória para relacionamentos respeitosos e regulamentação do conteúdo acessado por menores.
A pesquisadora alerta, porém, para uma 'armadilha' comum entre imigrantes: acreditar que desrespeito às mulheres é parte do "pacote" de se viver em um país desenvolvido de língua inglesa, devido à enxurrada de conteúdo desse tipo na internet.
"Acho que o grande desafio pra famílias imigrantes é que às vezes é vendido como um pacote. Para morar agora nesse país de língua inglesa, desenvolvido, é assim que se vive, é assim que se trata as mulheres... e não é verdade", afirma.
Jelic é enfática ao desmontar a ideia de que misoginia seria algo culturalmente aceitável em qualquer lugar: "Os imigrantes acabam sendo muito vulneráveis porque é vendido como uma maneira de pertencimento. E é exatamente o contrário: esse jeito de ver as mulheres não é o jeito australiano, nem é o jeito de nenhuma cultura, de verdade, nesse mundo."
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