SKIP TO MAIN CONTENT

Pesquisa revela que meninos australianos têm mais atitudes hostis às mulheres do que os avós

Universidade de Melbourne pesquisa
Entre garotos de 13 a 17 anos, 24,7% concordam que o feminismo deve "ser resistido com violência, se necessário". Credit: DAN PELED/AAPIMAGE

Estudo da Universidade de Melbourne com mais de 3.400 jovens a partir dos 13 anos revela que adolescentes australianos demonstram atitudes hostis às mulheres em nível maior que seus avós, associadas ao consumo de conteúdo da "manosfera" e a discursos extremistas. Em entrevista à SBS em Português, a doutora Ana Borges Jelic, pesquisadora do Centro de Excelência para Prevenção da Violência contra a Mulher da Universidade Griffith, analisa os fatores por trás do fenômeno e orienta pais, educadores e famílias imigrantes sobre como agir.


Published

By Luciana Fraguas

Source: SBS


Skip to podcast episode content

Estudo da Universidade de Melbourne com mais de 3.400 jovens a partir dos 13 anos revela que adolescentes australianos demonstram atitudes hostis às mulheres em nível maior que seus avós, associadas ao consumo de conteúdo da "manosfera" e a discursos extremistas. Em entrevista à SBS em Português, a doutora Ana Borges Jelic, pesquisadora do Centro de Excelência para Prevenção da Violência contra a Mulher da Universidade Griffith, analisa os fatores por trás do fenômeno e orienta pais, educadores e famílias imigrantes sobre como agir.


Pontos principais

  • Misoginia entre adolescentes cresce mais que na geração dos avós, aponta pesquisa australiana.
  • Entre garotos de 13 a 17 anos, 31,8% acreditam que as tentativas de dar oportunidades iguais às mulheres "foram longe demais".
  • Brancos, indígenas australianos, asiáticos, latinos e outros grupos demonstraram atitudes misóginas e permissivas à violência contra mulheres, com variação de intensidade, mas presentes em todas as comunidades.
  • Mesmo quando o extremismo tem motivação religiosa ou étnica, é a atitude misógina do jovem — e não sua origem cultural — que segue sendo o preditor mais forte de apoio à violência extremista, diz a pesquisa.

Uma nova pesquisa da Universidade de Melbourne trouxe um dado que chocou especialistas em prevenção da violência de gênero: adolescentes têm hoje mais chances de demonstrar atitudes hostis às mulheres do que a geração de seus avós. O levantamento, feito com mais de 3.400 jovens a partir dos 13 anos, associa a misoginia crescente ao apoio a ideias extremistas, à aceitação da violência e à exposição constante a redes sociais e influenciadores da chamada manosfera.

"O resultado da pesquisa é chocante, mas não é surpreendente para quem trabalha na área. A gente entende que a misoginia já existe nas gerações anteriores, então a gente tem uma piora, a gente não tem uma aparição de um fenômeno", explica a doutora Ana Borges Jelic, pesquisadora associada do Centro de Excelência para Prevenção da Violência contra a Mulher da Universidade Griffith, em Brisbane.

UNIVERSITY STOCK
Uma nova pesquisa da Universidade de Melbourne revelou dados alarmantes: meninos adolescentes estão mostrando atitudes mais hostis em relação às mulheres do que seus avós. Source: AAP / JULIAN SMITH/AAPIMAGE

Segundo ela, dois fatores explicam a precocidade do problema: a internet, "um ambiente que a gente sabe que é tóxico e cujos algoritmos radicalizam progressivamente o conteúdo consumido, e a perda da esperança dos jovens em relação ao futuro — emprego, moradia e clima —, que os empurra para discursos conservadores de resgate de "direitos do passado."

A pesquisadora também relaciona o fenômeno a um "backlash" contra os avanços femininos, como o movimento Me Too. "Existe um movimento contrário que é de homens adultos que vendem suas ideias - mais uma vez de homens adultos - para crianças e adolescentes", diz, citando o influenciador Andrew Tate, atualmente preso em Miami, como exemplo de um discurso adulto retrógrado empacotado para um público jovem e mais vulnerável.

Andrew Tate
Grupo de apoiadores dos influenciadores presos em Miami, os irmãos Andrew e Tristan Tate, fazem push-ups em protesto. Source: EPA / CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH/EPA

Sobre a manosfera, Ana explica que o conteúdo online vende três promessas a adolescetnes numa fase crítica e de formação de suas vidas: o corpo perfeito, o lucro fácil e o direito do homem de dominar a mulher. "Ele não vai conseguir entregar o dinheiro, ele não vai conseguir entregar o corpo perfeito, mas ele vai conseguir entregar frustração paro menino", afirma.

Esse padrão já aparece no dia a dia escolar.

Daniel Príncipe, educador do DART (Instituto de Recursos e Capacitação sobre Violência Doméstica), contou ao programa Life Matters, da ABC, que estudantes do 6º ao 8º ano relatam ver mensagens dizendo que "o lugar da mulher é na cozinha" ou que "as mulheres são interesseiras".

"Quando pergunto se estão vendo esse conteúdo em seus feeds na internet, todos os meus alunos levantam a mão", relata. Segundo ele, os próprios meninos dizem ter medo de conversar com mulheres na vida real — resultado, segundo Príncipe, de uma visão do sexo oposto "moldada por homens ressentidos na internet".

Apesar do cenário, a doutora Ana mantém uma leitura otimista. "A gente teve backlash nos anos 70, 80, muito daquilo se superou", lembra, citando conquistas como o direito ao divórcio e à carreira, hoje normalizadas. Para ela, o próprio backlash atual é sinal de que os avanços femininos incomodam — e tendem a prevalecer.

A autora da pesquisa, professora Sara Meger, defende intervenção precoce. "Precisamos intervir mais cedo e melhorar a forma como nos comunicamos com os meninos, para que eles desenvolvam um pensamento crítico antes de entrar em contato com esse conteúdo", recomenda, defendendo educação obrigatória para relacionamentos respeitosos e regulamentação do conteúdo acessado por menores.

A pesquisadora alerta, porém, para uma 'armadilha' comum entre imigrantes: acreditar que desrespeito às mulheres é parte do "pacote" de se viver em um país desenvolvido de língua inglesa, devido à enxurrada de conteúdo desse tipo na internet.

"Acho que o grande desafio pra famílias imigrantes é que às vezes é vendido como um pacote. Para morar agora nesse país de língua inglesa, desenvolvido, é assim que se vive, é assim que se trata as mulheres... e não é verdade", afirma.

Jelic é enfática ao desmontar a ideia de que misoginia seria algo culturalmente aceitável em qualquer lugar: "Os imigrantes acabam sendo muito vulneráveis porque é vendido como uma maneira de pertencimento. E é exatamente o contrário: esse jeito de ver as mulheres não é o jeito australiano, nem é o jeito de nenhuma cultura, de verdade, nesse mundo."

Para ouvir, clique no botão 'play' desta página.

Siga a SBS em Português no Facebook, Twitter, Instagram e You Tube. 

Ouça os nossos podcasts. Escute o programa ao vivo da SBS em Português às quartas-feiras e domingos ao meio-dia.

Assine a 'SBS Portuguese' no Spotify, Apple Podcasts, iHeart Podcasts, PocketCasts ou na sua plataforma de áudio favorita.


Latest podcast episodes

Follow SBS Portuguese

Download our apps

Listen to our podcasts

Get the latest with our exclusive in-language podcasts on your favourite podcast apps.

Watch on SBS

Portuguese News

Stream now