Miguel Coelho: do bodyboard à caça submarina, entre Portugal e a Austrália

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Corvina de 50kg, caçada por Miguel na Ericeira, Portugal (à esquerda) e lírio de 20kg caçado por Miguel no Algarve, Portugal (à direita).

Miguel Coelho é português, lisboeta de gema, e cresceu com o mar sempre à vista, entre Lisboa e Sintra. Licenciado em Educação Física com especialização em desporto aventura, Miguel tem também formação em vídeo e fotografia, mas cedo percebeu que a carreira tradicional o afastava do que mais ama: o bodyboard, a pesca e a caça submarina. Miguel está hoje a viver em Sydney, na Austrália, onde trabalha como marinheiro, e dedica todo o tempo livre a explorar o oceano, sempre atento aos desafios que este lhe apresenta, incluindo tubarões. Com licença oficial para pescar em Nova Gales do Sul, Miguel alia aventura, disciplina e muito respeito pelo mar, numa vida dedicada ao oceano e à descoberta.


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Miguel Coelho tem 32 anos e é lisboeta. Cresceu e estudou em Lisboa, mas sempre com um pé em Sintra, onde passa férias em família desde que se lembra de existir. Foi aqui que, novo, viu nascer uma enorme paixão pelo mar.

Miguel licenciou-se em educação física e desporto escolar, com especialização em desporto aventura. O seu interesse pelo audiovisual levou-o depois a estudar também vídeo e fotografia, área na qual chegou a trabalhar durante dois anos. Esta experiência profissional levou Miguel a concluir que este modo de vida o impedia de desfrutar do que mais gostava: o bodyboard, a pesca e a caça submarina.

O jovem tomou então a decisão de despedir-se e mudou-se de Lisboa para Sintra, de forma a estar mais perto do mar. Entre muitas reviravoltas, Miguel está hoje a viver em Sydney, na Austrália, onde trabalha como marinheiro. Aproveita, claro, todo o tempo livre para fazer bodyboard, para pescar e, sobretudo, para fazer caça submarina. Miguel não nega o medo dos tubarões e garante que está sempre alerta, mas este seu amor tem falado mais alto. Como o próprio diz, “é um grande vício”.

Miguel tem licença para pescar na Austrália, como aliás manda a lei e, por enquanto, pesca apenas em Nova Gales do Sul. Miguel explica que recorre à aplicação oficial do governo de Nova Gales do Sul, FishSmart, para aceder a informação essencial sobre a caça submarina no estado, nomeadamente identificação de espécies, limites de tamanho e captura, regras em vigor e zonas autorizadas. A app permite ainda consultar mapas em tempo real, marés, condições meteorológicas e outros dados importantes para planear uma saída para o mar em segurança e em conformidade com a lei.

www.dpi.nsw.gov.au é o site oficial do Department of Primary Industries and Regional Development do governo do estado de NSW. Aqui consta também toda a informação oficial sobre regras de caça, licenças, limites de captura, zonas marinhas, regulamentos e outros recursos úteis para pescadores e quem quer que esteja ligado ao mar.

As regras mudam de estado para estado, pelo que é fundamental consultar as fontes oficiais do governo do estado onde se encontra antes de se aventurar dentro de água.

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Miguel Coelho a fazer bodyboard em South Coast (NSW) © Jay Maguire

Como e quando é que surge esta tua relação com o mar?

Esta relação com o mar já vem desde pequenino, digamos assim. A nossa casa de férias ia com os meus pais para Sintra, e estávamos ali perto da Praia Grande e tudo. Depois, tinha amigos que se inscreveram em escolas de surf. Aliás, a minha primeira experiência com o surf foi ficando num surf camp na Ericeira. Fiquei lá umas semanas a aprender a fazer surf, ficava na praia o dia todo com mais malta. Então, digamos que foi aí que começou a minha paixão pelo surf. Pelo mar, no geral, mas maioritariamente pelo surf e pelo bodyboard.

Depois de eu ter tido essa experiência na Ericeira procurei uma escola para me inscrever e continuar a aprender mais e a surfar mais. Então entrei numa escola de bodyboard e surf na Praia Grande. Eu fazia inicialmente surf, maioritariamente. Estava a aprender a fazer surf, mas nesta escola a maior parte dos miúdos faziam bodyboard. Senti-me influenciado por eles e mudei para o bodyboard. A partir daí, fiquei sempre nessa escola. Ia a campeonatos nacionais, a taças de Portugal com eles, com o grupo todo, e foi assim até aos sub18. Dos sub16 aos sub18 fui sempre fazendo umas competições e umas viagens com esses amigos e aprendendo e evoluindo.

Hoje consideras-te mais surfista ou bodyboarder?

Sem dúvida o bodyboarder. Considero-me um surfista no verão, quando as ondas não estão assim tão boas para o bodyboard. Eu gosto dos dois. Dá-me prazer qualquer tipo de desporto relacionado com o mar. Por isso é que eu também decidi ligar-me um bocado à pesca, à caça submarina, porque às vezes chegava o verão e as ondas não eram assim tão boas. Para o bodyboard especificamente também. Então chegou uma certa altura em que eu não queria estar sempre a surfar aquelas ondas de verão e sentia que precisava de fazer outra coisa qualquer. Eu sempre gostei de pescar à cana. Ia com os meus pais várias vezes para a Graciosa, nos Açores, porque o meu pai tinha que dar lá consultas, então ia a família toda: eu, o meu irmão, o meu pai e a minha mãe ficávamos lá num moinho, literalmente, à frente do mar. Eu ia lá umas quantas vezes, fiz uns amigos vizinhos. Comecei ali a pescar com eles no pontão, depois eu levava os peixes e a minha mãe fritava para nós em casa. Então comecei a ganhar uma paixão pela pesca também, pela pesca à cana.

Um dia, eu ia comprar material de pesca que estava em falta, porque as ondas não estavam assim tão boas na altura... Fui à loja e, por surpresa, encontrei um amigo a trabalhar na secção da caça submarina. Então pensei: “por que não começar a caçar?" Eu gosto de pescar, mas não estou dentro de água. Estou ao lado da água, mas não estou mergulhado. Então pensei: se calhar a caça submarina é um bom complemento e é um bom treino. Pronto, não estou a surfar, mas estou a treinar para o surf.

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Miguel com um Bonito (peixe da família dos atuns), que apanhou em Sydney (NSW).
Acabei por comprar material de caça submarina. Quando experimentei, fiquei completamente viciado.
Miguel Coelho

Porque é que ficaste viciado?

Porque eu gosto muito de ir à descoberta. Estou dentro de água, estou ali a explorar, estou ali à procura de alguma coisa, não sei se é um bocado aquele instinto meio primata de caçar e de explorar, acho que é mais pelo explorar. Quando comecei a mergulhar, comecei a perceber que, numa baía pequenina, por exemplo, há muita coisa para explorar: ou os buracos, ou cavernas. E fui aprendendo bastante sobre os peixes, sobre a vida marinha e sobre as estruturas debaixo d'água. Fiquei completamente viciado, adorei e continuo a fazer, até aos dias de hoje.

Também há aí um fator surpresa, não é? Nunca sabes o que vais encontrar.

Exato, mas quando vou caçar, se não encontro algum peixe que me faça pensar “isto vale a pena caçar”, muitas vezes saio da água sem nada. Passadas duas, três ou quatro horas, estive ali a fazer, não sei, cem mergulhos, a ver não sei quantos buracos, à espera de alguma surpresa e não aparece. Não fico chateado, porque foi um complemento. Estive a treinar a minha apneia, estive debaixo da água. É bom, faz-me sentir bem. É um bom treino físico e psicológico também, porque se estou a surfar um mar um bocado maior, penso: “ok, tenho andado a treinar, a mergulhar, tenho andado a fazer alguns mergulhos de um minuto, um minuto e tal de apneias debaixo da água, então eu consigo levar com uma onda e ficar 10 segundos a rebolar debaixo de água. Ou 15, ou o que for. É essa lógica que eu tento encontrar, faz-me sentir mais confiante.

Sim, mas no sentido inverso também acontece, não é? Porque a tua experiência como bodyboarder também te torna melhor caçador.

Sim, exatamente. A minha experiência como bodyboarder foi uma grande vantagem para eu conseguir estar muito à vontade a caçar hoje em dia. Mesmo se o mar não estiver completamente parado, porque às vezes é possível ir fazer caça submarina e o mar está um bocado mexido. É que nós vamos para o fundo para ver e procurar os peixes, e o fundo mexe muito se houver ondas. E levanta a areia toda e tal. Depois queres descer e agarrar-te às pedras para não andares ali a balançar de um lado para o outro e a bater contra as pedras. Eu acho que o bodyboard e o à-vontade que o bodyboard me deu para lidar com as ondas foi uma grande ajuda e meio caminho andado para começar a ter um grande à-vontade na caça submarina.

Isto parece-me assim um bocadinho assustador, por muitos motivos...

É muito comum os peixes, algumas espécies mais que outras... Falando em Portugal, por exemplo, os sargos, os robalos, esses peixes, muitas vezes entocam e vão para buracos escuros. Tanto que o pessoal da caça submarina tem uma técnica de caçar que se chama mesmo “caça ao buraco”. Às vezes, nos buracos escuros pensas que não há nada, mas eles estão lá dentro, usas lanternas para procurar dentro dos buracos. Claro que é preciso ter sempre cuidado, não é?

Estás debaixo de água, tens tempo limitado, não vais entrar num buraco muito apertado em que possas ficar com uma barbatana presa, com o cinto ou com o fato agarrado a uma pedra ou a alguma coisa que te possa prender, não é? Que depois seja difícil voltares para a superfície. Mas sim, é um dos tipos de caça muito feito em Portugal também.

Podemos dizer que tu vais a quanta profundidade?

Nos Açores, sim, mergulha-se mais fundo, mas o máximo que eu já fui foi aos 23 metros.

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Miguel Coelho com algum do material que usa para fazer caça submarina, como a boia, que sinaliza a presença de um mergulhador.

Estavas também aqui a descrever o fato, as barbatanas... Gostava que nos dissesses exatamente aquilo tu usas quando decides que vais para dentro de água caçar.

Precisamos de um fato, de umas barbatanas, que normalmente são aquelas barbatanas longas, para ter mais propulsão e ajudar na caída e nos mergulhos. Precisamos da arma, obviamente. Assim muito simplesmente, é uma arma que consiste num tubo, um cano direito, às vezes é de carbono, outras vezes é de plástico, talvez, que tem o arpão, que é o que dispara para apanhar o peixe, e funciona pela força de elásticos. Os óculos, o snorkel, o tubo, para respirar à superfície, porque vais querer estar à superfície a respirar e olhar para o fundo, as pedras, as estruturas... Então estás a recuperar, a respirar, a acalmar, a tentar estar o mais tranquilo possível, a reduzir o batimento cardíaco. Para isso usamos os óculos e o snorkel. Depois é obrigatório usar uma bóia com uma bandeira alfa, que sinaliza a presença de um mergulhador.

Para fazer a caça ao buraco que estávamos a falar há bocado, é muito usada a lanterna, porque às vezes vais ver um buraco que está tudo escuro, ligas a lanterna, consegues investigar o buraco e se calhar lá no canto, no fundo, está um grande exemplar de um peixe que vais querer apanhar. Precisamos também de um cinto com o lastro. Se o mar estiver muito mexido, vais querer pôr mais peso no cinto, para conseguir estar mais fixo ao fundo, para não mexeres tanto de um lado para o outro, porque o mar está mexido. Se estiveres a mergulhar muito fundo não vais querer tanto peso, porque depois custa muito a subir. Convém também teres uma faca, que normalmente fica na perna ou no cinto, para casos em que tenhas que cortar os fios ou alguma coisa que esteja a prender.

É importante ter sempre um dive buddy. Alguém para vigiar o mergulho, ou duas pessoas a mergulhar. Mergulha um de cada vez, e há sempre uma pessoa a vigiar. Não é o nosso ambiente e há riscos.
Miguel Coelho

Nós ficámos aqui muito Portugal, mas temos que focar também na Austrália, obviamente. Onde estás a viver e há quanto tempo?

Então, eu cheguei à Austrália, não me engano, foi dia 5 de dezembro de 2024. Fiz uma pequena viagem com a minha namorada e mais uns amigos. Aterrámos em Melbourne e subimos até Sidney de caravana. Depois baseei-me em Sidney, à procura de trabalho. Até hoje, a minha base tem sido sempre Sidney, excepto no inverno, que fiquei a passar o meu tempo na South Coast.

Aqui também estás a ter um trabalho ligado ao mar, claro... Exatamente. Eu trabalho nos barcos. Também costumava trabalhar em Lisboa, no Rio Tejo. Por isso é que tenho que estar baseado em Sidney. A empresa onde trabalho, os barcos estão em Balmain e nós fazemos passeios, festas de anos, despedidas de solteiro ali no Sydney Harbour. Passamos ao pé da ponte da Opera House, depois os clientes vão dar mergulhos, fazemos churrasco, bebem uns copos, ouvem uma música. E eu gosto, porque lá está, é ligado ao mar.

 Qual é a tua função neste contexto?

Sou deckhand, marinheiro. Ajudo a levar o barco com o skipper, a lidar com os cabos, a ajudá-lo a atracar.

Pelo que dizes, tens conseguido manter a tua relação com o mar, mesmo estando deste lado do mundo?

Tenho, tenho. Eu acho que é um bocado difícil para quem gosta do mar e tem uma grande relação com o mar, vir para a Austrália e não ter uma grande experiência relacionada com o mar.

Se calhar não é ao caso que escolheste este país... Aliás, neste país a pesca é banalíssima, os miúdos começam a pescar desde muito cedo.

Exatamente, isso é uma das coisas que me fascina. É o facto de as famílias e os miúdos pequenos, às vezes em grupo... Aqueles grupos de miúdos que andam nas bicicletas, sempre com as canas de pesca atrás, e vão aos grupos de 10 pescar para os wharfs e para todo o lado. Todas as pessoas têm uma cana de pesca no carro... É um mundo muito grande relacionado com a pesca.

Até maior do que em Portugal, não dirias?

Sim, diria. E diferente. Eu sinto que aqui é mais... Não sei, às vezes parece que os pescadores em Portugal... Temos aquela ideia do pescador velho, carrancudo... Eu acho que aqui, pronto, a malta jovem pesca muito, os miúdos e tudo, e são muito simpáticos, percebes? Eu vou pescar ao lado de outra pessoa que está a pescar e temos ali uma conversa e ajudamos-nos um ao outro. Às vezes o que eu sentia em Portugal é que a malta é mais distante. Eu vou pescar e se alguém já está lá a pescar, fico logo com a ideia de que eles não vão gostar que tu estejas ali perto. E se fores falar são poucos os que são simpáticos, às vezes. Aqui o pessoal é muito simpático no geral, também é cultural. Não conheces a pessoa, mas essa pessoa vai ter uma conversa contigo.

Portanto, se calhar já fizeste assim umas amizades aleatórias em contexto de pesca aqui na Austrália.

Sem dúvida. E pus-me logo em grupos de Facebook em Sidney. É muito giro. Há relativamente pouco tempo fui mergulhar para Palm Beach com um amigo e fizemos caça submarina. Quando voltei, encontrei lá um senhor assim mais velho, e ele começou a dizer: "ah, eu também caço, tenho um clube de caça submarina, isto e aquilo", e ficámos ali grandes amigos, a mostrar as fotografias um ao outro. Ele convidou-me para eventos do grupo, a malta é muito inclusiva. Gosto muito. Em Portugal, a ideia de pessoal que pesca é mais aquela ideia do velho carrancuda, a ideia de que pesca é para os velhos. Mas eu acho que isso é uma coisa que tem vindo a mudar ao longo dos anos, agora principalmente com a malta que faz surf. Há um grande boom na caça submarina através da malta que pesca, que faz surf e bodyboard.

Em termos técnicos, há alguma diferença Portugal- Austrália que queiras referir?

São espécies diferentes. Por exemplo, aqui o foco é mais nos atuns ou no kingfish. É uma caça diferente. Aqui na Austrália não vejo robalos. Vejo, se calhar, outras espécies parecidas, mas não há robalos. Há sargos, mas por exemplo, diria que o sargo de cá não é tão bom como o nosso. Depois também há o fator tubarões, que em Portugal não estamos habituados e não pensamos que pode acontecer, embora não haja fronteiras. A verdade é que aqui na Austrália há bastantes tubarões.

Aqui na Austrália, quando mergulho, estou sempre com um olho no burro e outro no cigano. Estou sempre a pensar que pode aparecer um tubarão.
Miguel Coelho

Não vou dizer que não. Não é que os vejas sempre, mas eu sinto que há sempre uma grande possibilidade de os veres. E já vi, claro. Eu aqui na Austrália quero mergulhar com a água muito limpa. Não vou caçar quando a visibilidade não está assim tão boa. Porque lá está, é pior caso haja tubarões. Nesses casos, se o vires, em princípio já vais estar muito perto dele.

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