A relação de Craig Foster com o Canarinhos atravessa décadas.
Ex-jogador dos Socceroos, comentarista e uma das vozes mais respeitadas do futebol australiano, Foster acompanha de perto a trajetória do grupo brasileiro em Sydney.
“Conheço o Gel e todos lá há muitos, muitos anos. Décadas, na verdade. São caras fantásticos. Apaixonados por futebol. Estão há muito tempo apoiando o jogo, promovendo o futebol e, claro, reunindo a comunidade através do esporte pelo qual o Brasil é tão famoso”, afirma.
O primeiro contato veio por meio de duas figuras centrais da história do futebol na Austrália: Les Murray e Johnny Warren, que Foster descreve como verdadeiros padrinhos do clube.
“Eles adoravam os Canarinhos. Sabiam o que o grupo representava. Era uma comunidade muito unida. E tanto o Les quanto o Johnny eram grandes apoiadores dos brasileiros e do futebol brasileiro.”
Para Foster, a influência do Brasil no modo como esses jornalistas pensavam o jogo era evidente.
“Eles amavam o Brasil. Aquilo fazia parte da maneira como falavam de futebol. O Les sempre dizia ‘diferentchi’, com aquele sotaque brasileiro. Nunca vou esquecer.”
A criação da Les Murray Cup pelo Canarinhos, em 2010, quando o jornalista ainda estav vivo (ele viria a falecer em 2017), é vista por Foster como gesto essencial de memória.
“É particularmente apropriado que a comunidade brasileira continue a reconhecê-lo. É importante ter esse troféu, ter esse dia. A memória pode desaparecer. Esses eventos lembram a nova geração do que ele representou.”
Foster recorda o quanto o futebol moldava a vida de Les Murray.
“O futebol era a vida inteira dele. Ele acordava e já estava pensando em futebol.”
Conta, com humor, que o jornalista dava apelidos a todos os amigos, acrescentando o sufixo “inho” aos nomes. “Eu era o Fozinho. Ele nunca me chamava de Craig fora do ar.”
Uma das memórias mais marcantes aconteceu na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a última de Les Murray antes da aposentadoria.
Foster presenteou o colega, ao vivo na SBS, com uma camisa comemorativa do Botafogo em homenagem a Garrincha.
“Ele ficou praticamente às lágrimas no ar. Falou sobre Garrincha e o que aquilo significava para ele.”
Após a morte de Murray, a camisa foi entregue a Foster. “Às vezes, quando vou a um evento da comunidade brasileira, uso essa camisa. É uma lembrança linda.”
Para ele, o respeito da comunidade latino-americana por Les Murray estava ligado à forma como o jornalista defendia o futebol num período em que o esporte enfrentava preconceito na Austrália.
“Era chamado de ‘jogo de imigrante’. Não era considerado suficientemente forte ou masculino. E o Les sentava no estúdio e dizia: este é o jogo magnífico, o jogo bonito. Ele tinha orgulho quando ninguém tinha.”
Foster afirma que o futebol teve papel sem paralelo na integração de comunidades migrantes no país.
“Não há outro esporte que tenha feito isso num país multicultural como a Austrália. Quase todas as comunidades que chegaram trouxeram o futebol na mala.”
Segundo ele, os clubes comunitários funcionaram como dois pilares fundamentais: a instituição religiosa e o clube esportivo. “Ali as pessoas se reuniam, discutiam, integravam outros australianos. Foi uma promoção extraordinária de integração.”
Ao celebrar os 54 anos do Canarinhos, Foster deixa uma mensagem clara.
“Vocês fizeram um trabalho incrível. Mantiveram viva a beleza do futebol e a visão brasileira do jogo. Deram força ao Les e ao Johnny quando eles precisavam. Criaram uma porta de entrada para brasileiros entenderem o ambiente social e esportivo australiano.”
“É isso que o futebol faz. É por isso que estamos todos unidos pelo jogo,” diz.
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