Para muitos brasileiros que chegam à Austrália, a adaptação vem com um pacote pesado: saudade, solidão, inglês ainda travando e a sensação de não pertencer.
No Centennial Park, em Sydney, existe um lugar que ajuda a aliviar esse peso há mais de cinco décadas. É ali, no gramado oficialmente reconhecido como Brazilian Fields, que o Canarinhos mantém viva a paixão brasileira pelo futebol e, mais do que isso, constrói comunidade.
Atacante do time, Thiago Mendes resume o que o clube significa com uma frase direta: “O Canarinhos é a nossa casa”.Thiago veio de São Paulo, capital, e chegou a Sydney em 2005 com um plano simples: estudar inglês por seis meses e voltar. “São 20 anos que eu estou na Austrália. Eu vim para ficar seis meses e acabei ficando e não indo embora mais”, conta.
A escolha pela Austrália foi quase por impulso, movida por amizade e coincidência. “Foi no dia do meu aniversário… encontrei meus amigos no bar e eles estavam organizando de ir para a Austrália todo mundo junto. E eu falei, eu também estou indo.
”Sydney foi o destino desde o começo. E foi também onde ele descobriu o Canarinhos, num momento em que precisava de algo que parecesse familiar. “Eu descobri através de um amigo em comum da escola… ele falou, tem clube brasileiro aqui no Centennial Park… eu acho que você deveria ir lá.” Thiago foi e encontrou ali mais do que futebol. “Pra mim foi uma casa que eu não tinha na Austrália ainda. Foi o primeiro lugar que eu me identifiquei… eles me receberam de braços abertos.
”Os domingos no parque tinham ritual e organização. “Tinha que chegar mais cedo, ajudar a fazer o setup, colocar o nome na lista e já começava a jogar.” Mas, para Thiago, o principal era o ambiente humano.
“Quando eu cheguei na Austrália, eu fiquei meio que em depressão… era difícil fazer amizade, porque não tinha tanto brasileiro como tem no momento.”
O clube ajudou a atravessar esse período. “O Canarinhos ajudou muito nessa parte.”A saudade, diz ele, era do que o Brasil tem de mais cotidiano: proximidade e conversa fácil.
“O Brasil é assim, é todo mundo muito amigo… aqui a gente chega num país diferente, numa língua diferente.”
E havia ainda o choque da época: “Não tinha comida brasileira, porque na época que eu cheguei, 20 anos atrás, não tinha como ter agora. Meu inglês era muito ruim… enquanto eu tinha brasileiro em volta, eu me sentia confortável, me sentia em casa.”
O tempo passou, a vida mudou e Thiago construiu raízes. Hoje, ele tem quatro filhos na Austrália e nem sempre consegue ir ao parque todo domingo. “Tô ficando velho”, brinca.
Ainda assim, segue presente quando pode e mantém o vínculo com a comunidade. “O Canarinhos pra mim continua sendo uma família, eu sempre ajudo eles no que eu posso.”
Dono de restaurante brasileiro em Sydney, ele apoia o clube também nos bastidores. “A gente ajuda a fazer o churrasco, faz a donation das picanhas quando tem as peladas no domingo, os campeonatos.”As amizades daquele começo permanecem.
“Seu Gelsimar, o Nélio, Nego Coy da Bahia, Chicão, Baiano… tem muita gente que continua no clube desde a época que eu cheguei.”E o acolhimento que Thiago recebeu virou compromisso com quem chega agora. “Todo mundo é bem-vindo nos Canarinhos… toda semana tem sempre o pessoal novo chegando.”
Ele vê nisso uma forma de retribuir. “A gente teve esse suporte no começo, então por que não ajudar a galera que tá chegando hoje em dia.”O Canarinhos, insiste Thiago, não é só brasileiro. “É uma mistura… temos argentinos, chilena, francês.
"Amizade, churrasco, família. Eu acho que futebol abrange tudo isso.”Quando fala da missão do clube, ele vai além do jogo. “É uma missão de ajudar o pessoal que chega na Austrália… ajudando o pessoal com o emprego, ajudando o pessoal sobre a localização, o que fazer.”
Para Thiago, é levar para Sydney um pouco do que ele sentiu falta quando desembarcou. “A gente traz pouquinho dessa coisa que a gente não tem na Austrália, que o Brasil oferece pra gente.”Com o Canarinhos celebrando 54 anos, a mensagem é de continuidade. “Continuar fazendo o trabalho… é difícil, porque é muita coisa envolvida por trás do clube.” E ele faz questão de reconhecer quem segura essa estrutura.
“A gente tem que tirar o chapéu para o presidente Gel Freire, porque ele faz muita coisa pelo clube.”No fim, Thiago volta ao ponto central: o Canarinhos como abrigo e herança.
“Tá ajudando muitos brasileiros na Austrália… como se fosse a nossa casa aqui.” E projeta esse legado para a própria família. “É bom para os meus filhos, vai ser para os meus netos… continue por mais 50 anos.”
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