Há mais de três décadas, Valter Francisco Necchi de Oliveira, o Chicão, ajuda a escrever a história do Canarinhos no Centennial Park, em Sydney.
Ex-jogador e hoje conselheiro do clube, ele representa a geração que transformou encontros informais de domingo numa das mais duradouras iniciativas da comunidade brasileira na Austrália.
Natural de Porto Alegre, Chicão saiu do Brasil em 1988 rumo à Inglaterra.
Dois anos depois, movido pela curiosidade e pelas conversas com amigos australianos, decidiu atravessar o mundo. “Cheguei aqui e me apaixonei pelo país, pelo clima, pela cultura e resolvi ficar”, conta.
Instalou-se definitivamente em Sydney em 1991. “Hoje estou muito feliz e não vejo outro lugar para morar se não for aqui.”
O futebol sempre fez parte da sua vida.
“Joguei nas escolinhas do Grêmio”, lembra.
Ao saber que havia brasileiros jogando no Centennial Park, não hesitou em aparecer num “peneirão” organizado pelo grupo.
Pouco depois, participou de um amistoso contra uma equipe chilena. Foi ali, num momento simples e espontâneo, que nasceu algo maior. “Depois do jogo, o Paulinho puxou seis garrafinhas de cerveja do carro. Ficamos ali conversando e apareceu a ideia de fazer uma coisa mais oficial. Tudo começou ali, através daquela cervejinha.”
Com o tempo, o grupo se organizou e passou a fortalecer a parte social do encontro. “Cada fim de semana levávamos algo para o pessoal ficar mais no parque, fazer uma social e se conhecer melhor.” Assim se consolidou o que hoje é conhecido como Canarinhos, oficialmente o Sydney Brazilian Social Club, mas carinhosamente chamado pelo apelido que virou marca.
Chicão jogou por muitos anos e hoje atua como conselheiro. “Temos seis conselheiros. Quando surge uma questão, a gente vota para que a maioria esteja de acordo. Não é clube de uma pessoa só.”
Hoje ele participa das decisões administrativas, eventos e questões burocráticas, permitindo que os jogadores mais recém-chegados se concentrem no jogo.
Mas o Canarinhos vai além da bola rolando. “É uma entidade filantrópica sem fins lucrativos”, explica.
“Está aberta para brasileiros e estrangeiros.” O clube oferece apoio prático a quem chega. “A gente ajuda com trabalho, moradia, assistência social.” Chicão recorda a mobilização após as enchentes no Rio Grande do Sul. “O pessoal se uniu para arrecadar fundos e mandar ajuda. Isso mostra a força do grupo.”
Ele destaca que muitos recém-chegados chegam sem domínio do idioma e sem rede de apoio. “Chegam meio perdidos. A gente se ajuda.” Sem patrocínio fixo ou apoio governamental direto, o clube se mantém com esforço coletivo. “Organizamos churrasco, evento, e assim vamos ajudando com o que podemos.”
Manter a estrutura ativa é um desafio. “A dificuldade financeira é grande”, reconhece. Ainda assim, o Canarinhos segue firme e renovando gerações. Chicão cita o tradicional torneio em Jamboree, disputado há mais de 20 anos. “Muitas equipes desapareceram, mas a nossa está sempre se renovando. Todo esse trabalho no Centennial Park dá frutos.”
Com o clube celebrando 54 anos, ele reforça o convite.
“As portas estão abertas para todos, não somente para brasileiros.” Aos domingos, a partir das 11h, o encontro acontece no espaço oficialmente reconhecido como Brazilian Fields. “Tem futebol amistoso, às vezes churrasquinho, refrigerante, cervejinha gelada e boa conversa.”
Série Canarinhos

Canarinhos: 54 anos de futebol, paixão e tradição em Sydney
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