Pontos principais
- Romances rurais, fantasia românticas e ficção científica estão em alta nos últimos anos.
- Mulheres representam a maioria entre leitores de romances, muitas delas na faixa dos 25 aos 40 anos, em todos os subgêneros.
- Contos sobre pais ou mães solteiros também estão em alta.
- O BookTok, uma subcomunidade do TikTok, pode ter grande influência no sucesso de uma publicação.
- A maioria das pessoas ainda prefere o livro impresso. E a geração Z é a que mais adota o formato original.
- Áudiolivros estão em alta, possivelmente puxada por jovens do sexo masculino.
Contar histórias continua sendo uma parte essencial do que significa ser humano.
Compreendemos o mundo através das histórias que contamos sobre nossas próprias vidas e das histórias que ouvimos dos outros.
Contar histórias também nos permite acessar diferentes mundos, tanto os verossímeis quanto os fantásticos.
Que tipo de histórias mais cativam os australianos?
No topo das listas de livros mais vendidos no país estão romances, histórias de crimes reais e ficcionais, livros de autoajuda e memórias.
Com a palavra, Katherine Day, professora do programa de editoração da Universidade de Melbourne.
"O gênero policial tem sido popular há alguns anos, impulsionado principalmente por histórias de crimes reais, se considerarmos o gênero não ficcional, mas também pelo gênero policial em geral. A maioria dos gêneros que abrangem mais de uma categoria são populares. E aí vemos gêneros híbridos dentro desses. Outro gênero enorme é o romance, que engloba muitos subgêneros como fantasia romântica, comédia romântica, todos esses, até mesmo o romance rural tem sido muito popular há um tempo".
Quando se trata de romances, não há uma preferência específica.
Os subgêneros variam do romance rural, passados em ambientes rústicos, à fantasia romântica, que deleita leitores com elementos de fantasia ou ficção científica. São criaturas míticas, dragões e magia entrelaçados em uma narrativa de romance.
A fantasia romântica ganhou destaque nos últimos anos, em parte por conta de resenhas nas redes sociais, principalmente por meio do BookTok, do TikTok.
A usuária australiana do BookTok, Tierney Page, resenha romances para seus mais de 800 mil seguidores.
Seus comentários são descaradamente francos, celebrando alguns dos elementos mais explícitos do desejo sexual feminino.
"Então você quer uma série de romance completa com um toque picante? Não se preocupe, eu tenho a solução. A melhor opção é Legacy of the Nine Realms, de Amelia Hutchins. Se você ainda não leu e adora fantasia picante, precisa ler. A protagonista é uma bruxa. A tia dela é uma pessoa sem graça. Ela tem um milhão de irmãs. Ela se torna superpoderosa. E então o protagonista masculino aparece. Ele é, até hoje, um dos meus protagonistas masculinos favoritos. Ele é um babaca, mas é muito gostoso. Além disso, a gente não sabe quem ele realmente é, mas o peito dele vibra assim e ele fica excitado. Lá embaixo, ele fica excitado. E vou te dizer uma coisa: a picância vai te deixar mais mole que um sanduíche de tomate".
A professora Day, da Universidade de Melbourne, afirma que as mulheres representam a maioria entre leitores de romances, muitas delas na faixa dos 25 aos 40 anos, em todos os subgêneros.
"Mesmo se você observar o romance rural, que mencionei anteriormente, esse gênero ganhou força há cerca de uma década. Há também a literatura rural, que é bastante específica em relação aos personagens, enredos e tramas, que precisam se passar em um ambiente rural, principalmente na Austrália. E isso, na verdade, se adaptou muito bem, em alguns casos, também ao mercado internacional. Então, acho que o fato de conseguir se reinventar um pouco e atender aos diferentes gostos e preferências de leitores específicos é o que mantém sua popularidade."
Embora foquem principalmente em histórias heterossexuais, os contos sobre pais solteiros também estão em alta.
Geralmente, o pai ou a mãe é divorciado(a), viúvo(a) ou alguém que repentinamente ganha a guarda de um parente jovem, colocando seu lado maternal em evidência.
Em pauta, responsabilidade, vulnerabilidade e o potencial para uma família reconstituída.
Este é um comentário de Tierney Page, do BookTokker, em uma de suas postagens.
"Pais solteiros são um clichê que nunca sai de moda. Só melhora. Ele é um pai solteiro, perdeu a esposa para o câncer. Tem duas filhinhas lindas e, nossa, ele borrifa o perfume da mãe delas nos travesseiros. Este não é apenas um dos livros mais picantes que já li, é lindo. Consigo chorar só de pensar nele."
Outros subgêneros populares incluem romances sem relatos de sexo explícito; romances com temática esportiva; o steampunk, que é um gênero de ficção científica retrofuturista; e também estilos paranormais e históricos.
O relatório Better Reading, da Monash University para 2025, indica não haver diferenças drásticas entre as preferências de leitura de homens e mulheres, com as notáveis exceções das categorias de romance e ficção científica.
As mulheres preferem romance, com quase 50% da preferência, em comparação com 12,2% dos homens.
Os homens preferem ficção científica, com 41,6%, em comparação com 17,6% das mulheres.
Os subgêneros da ficção científica contemporânea incluem ficção científica hard e soft, terror, cyberpunk, distopia, apocalipse e viagens espaciais.
A professora Katherine Day afirma que alguns outros gêneros também se destacam entre os leitores homens.
"Os homens também tendem a gostar de história e livros militares, que não atraem muito as mulheres, considerando os números de vendas desse tipo de livro."
Luke Bateman costumava ler em segredo, revelando ao programa Insight da SBS em 2025 que se trancava no banheiro para ler livros de fantasia.
Luke disse que os livros sempre foram uma parte fundamental de sua vida, principalmente em momentos difíceis.
O ex-jogador de Rugby League e estrela do programa The Bachelor agora faz resenhas de ficção fantástica de dentro de seu trator em sua fazenda, um estilo que lhe rendeu milhões de visualizações no TikTok.
Qual o impacto que os criadores de conteúdo do BookTok têm nos hábitos de leitura e compra dos consumidores?
Katherine Day afirma que, se um usuário do BookTok fizer uma avaliação positiva e ela viralizar, isso pode impulsionar significativamente as vendas e a campanha de marketing do autor.
"Acho que o BookTokker mais popular dos EUA tem milhões, milhões de seguidores. E o que eles fazem basicamente é promover os livros que estão lendo ou até mesmo aqueles que estão expostos em suas estantes. Quer dizer, o fato é que alguns BookTokkers nem leem os livros, eles só gostam das capas, e talvez esse seja o meme ou o segmento do BookTok sobre design. Mas eles expõem o livro a um público mais amplo de leitores que os seguem por algum motivo. Algumas resenhas são muito divertidas, outras são apenas factuais, mas é essencialmente um tipo diferente de resenha do livro, em comparação com a resenha tradicional que critica a obra."
O relatório da Monash mostra que, embora muitos tenham boas intenções em relação à leitura, com tantas distrações digitais, houve um declínio recente na leitura de lazer.
A pesquisa sobre os hábitos de leitura de 1622 participantes de diferentes faixas etárias revela que mais da metade deseja ler mais do que o faz.
Sophie Groom é a CEO da Writing New South Wales:
"Havia um sentimento muito forte de que os australianos querem ler mais, o que é ótimo. Mais de 50% dos entrevistados disseram que querem ler mais, e isso foi bastante comum entre pessoas que já leem muito e aquelas que quase não leem. Então, temos a intenção certa. Trata-se apenas dessa economia da atenção, onde é tão difícil para as pessoas encontrarem tempo para ler, e acho que é aí que formatos alternativos podem realmente ajudar. Assim, coisas como audiolivros, livros digitais e e-books podem ajudar as pessoas a integrar a leitura em suas vidas de forma diferente."
Mas a maioria das pessoas ainda prefere ler em formato impresso, sendo a Geração Z, ou seja, a que nasceu aproximadamente entre 1997 e 2012, a que mais adota o formato tradicional. Além disso, audiobooks estão em alta.
De novo, Sophie Groom:
"Está bastante estável, então cerca de 70 a 75% dos leitores preferem ler em formato impresso e cerca de 20 a 25% preferem ler em formato digital. E, claro, alguns leitores transitam entre os dois formatos. Mas onde estamos vendo o maior crescimento é, na verdade, nos audiolivros. Os audiolivros estão em alta, os números variam e é um pouco difícil precisar devido à fragmentação do mercado, mas provavelmente aumentaram cerca de 15%, o que é realmente muito significativo."
Sophie Groom afirma que, embora seja difícil verificar os números exatos, os dados disponíveis sugerem que o aumento se deve principalmente ao fato de os jovens do sexo masculino estarem ouvindo mais audiolivros.
A popularidade dos audiolivros deve-se em parte à conveniência, ou seja, à possibilidade de passear com o cachorro, fazer exercícios, realizar tarefas domésticas e muitas outras atividades enquanto se ouve uma história, diz Groom.
"É uma mistura eclética. Livros de não ficção são muito populares em audiolivros, tanto livros didáticos quanto memórias, e muitas dessas memórias são lidas pelo próprio autor, o que proporciona uma experiência realmente especial em áudio, onde você ouve a história da pessoa contada com suas próprias palavras. Portanto, esse é um gênero particularmente forte em áudio."
Muitos também acham confortável ouvir uma voz ao ler o livro — especialmente se para a história do próprio autor.
Mas... o que é considerado um best-seller no mundo editorial australiano?
Sophie Groom diz que é difícil mensurar isso.
"Varia muito. Se você vendesse 100.000 cópias de um livro na Austrália, ficaria absolutamente encantado. Isso seria realmente considerado um best-seller de sucesso."
Mas ela afirma que os autores estreantes podem estar se saindo bem mesmo se vendem muito menos do que isso.
"A maioria das pessoas que escrevem um romance de estreia ficaria muito feliz em ter de 4.000 a 5.000 exemplares desse livro vendidos no mercado australiano neste momento."
Outra mudança recente no mercado editorial da Austrália e internacional é o aumento da autopublicação, especialmente de livros digitais.
A tecnologia tornou a publicação mais acessível e econômica do que nunca para um público mais amplo.
"Acho sensacional que as pessoas estejam escrevendo do jeito que querem, da maneira que pretendem, e depois publicando seus próprios livros de forma independente. Então, definitivamente, é lucrativo para alguns que têm tempo, energia e um pouco de perspicácia para investir no marketing desses livros", diz a professora Katherine Day.
Em 2023, a Aliança de Autores Independentes do Reino Unido encomendou uma pesquisa global com mais de 2.000 autores autopublicados.
A pesquisa revelou que eles ganhavam mais do que autores que publicavam por meio de editoras tradicionais.
Escritores mais jovens são mais propensos a optar pela autopublicação como primeira opção.
Além disso, autores de nicho — por exemplo, do mercado LGBTIQ+ — têm cada vez mais recorrido à autopublicação como primeira opção, ignorando completamente as editoras tradicionais.
Mas também existem problemas com a forma como as plataformas digitais promovem livros, entende a professora Katherine Day.
"Acho que eles alimentam certos algoritmos que são muito direcionados. Fizemos uma pesquisa em nosso próprio programa na Universidade de Melbourne para mostrar como eles marginalizam certos autores também nos metadados que usam nos bastidores, na configuração da conta, até mesmo nas palavras-chave, para promover seu título; em algum momento, eles podem controlar esses metadados nos bastidores. E acho que esse tipo de intervenção é bastante perigoso e nos predispõe a ler certos livros, a que certas pessoas leiam certos livros."
A inteligência artificial também já tem um impacto nesta área.
Para as editoras tradicionais, as restrições ao uso de IA estão embutidas em contratos.
Mas quando se trata de autopublicação, as coisas não são tão claras.
Em setembro de 2025, Lucy Hayward, CEO da Sociedade Australiana de Autores, disse a uma comissão do Senado que os leitores também estão sendo prejudicados com a proliferação de livros gerados por IA.
"Sabemos que em 2023 a Amazon mudou sua política de upload para um máximo de três livros por dia. Isso ocorreu após o lançamento das ferramentas de IA generativa. Se isso nos diz algo sobre a quantidade de livros que estão sendo enviados para a plataforma. Ninguém escreve um livro em um dia. Portanto, estamos preocupados com a enxurrada de conteúdo gerado por IA em varejistas globais. A descoberta de autores australianos já é bastante difícil — isso tornará tudo impossível. Além disso, vamos prejudicar a confiança do consumidor. Se você está procurando um livro e tudo o que encontra é conteúdo de baixa qualidade gerado por IA, você desiste?"
Existe um termo específico para esse tipo de material: A-I SLOP, que também foi a Palavra do Ano de 2025 do Dicionário Macquarie. AI Slop pode ser traduzido livrememente traduzido como uma inundação de conteúdos feitos por AI nas plataformas digitais.
Aprender a discernir o que é e o que não é A-I SLOP é algo com que os leitores estão apenas começando a lidar.
Mas Sophie Groom afirma que o que permanece claro é que, quando se trata de narrativa original, os benefícios para os leitores são evidentes.
"É ótimo para o cérebro. É ótimo para as crianças. É um dos fatores que realmente impactam o sucesso de uma criança na escola e na busca de um emprego depois da escola, se ela for uma leitora independente que gosta de ler por prazer. Mas também é ótimo para adultos e é ótimo para aprender, para relaxar. E também é uma ótima maneira de desenvolver empatia e ampliar a visão de mundo, então acho que se trata apenas de divulgar algumas dessas mensagens realmente positivas sobre a leitura."
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